16 Maio 2022, Segunda-feira
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Clemente Mitra: Um espaço de memórias coleccionadas ao longo dos anos pelo ex-comandante dos Bombeiros de Cacilhas

Colecção privada do ex-comandante dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas, Clemente Mitra, reúne peças que evocam aqueles a quem “nunca seremos suficientemente gratos”

 

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É entre estantes e vitrais que o ex-comandante dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas, Clemente Mitra vai dispondo peças e materiais de trabalho que compõem a sua colecção pessoal e o aproximam daquela que afirma ser a sua paixão: os bombeiros. Quem passa junto à Praceta Bartolomeu Constantino, no Feijó, não desconfia que existe um armazém que guarda milhares de peças que o bombeiro foi coleccionando ao longo de 45 anos de carreira.

Fardas, veículos em miniatura, crachás, diplomas e inúmeros artigos alusivos aos bombeiros dão vida a um espaço que conta não só a história de Clemente Mitra, mas de todos os que se dedicam a salvar a vida do próximo. “Tenho aqui peças que mais ninguém tem”, revela o coleccionador. “Peças magníficas que foram feitas à mão com muita dedicação e que falam muito forte”, refere.

Os veículos em miniatura que decoram uma parede inteira são exemplo disso. “Há 15 anos, um artesão mostrou-me um dos carros mais antigos da Corporação de Cacilhas, o Barbeiro, que tinha feito à mão. Fiquei encantado com o pormenor daquele carro. Quis vender-mo por 50 contos e eu comprei porque era uma peça única”, conta. Hoje, tem exposto um clássico de cada corporação do distrito de Setúbal e isso parece ser um chamariz para quem admira a causa. “Um dia, um rapaz de Almada entrou aqui e, ao ver o carro, começou a chorar. Isto toca-nos”, salienta.

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À medida que avança pêlos corredores, apetrechados de objectos, o bombeiro conta o “valor único” que cada um tem: “Aqui está a farda do meu filho quando fez 10 anos. Ele seguia-me para todo o lado nos bombeiros e a mãe ofereceu-lhe uma fardinha. Hoje é bombeiro de segunda classe, o meu sucessor. Isto aqui é uma motobomba. Servia para transportar a água, antes de existirem carros a motor. Uma autêntica relíquia. Podiam dar-me 500 euros que eu não a vendia por nada”, acrescenta.

Dos caixotes para o museu

Mas, mais do que objectos, o seu museu pessoal é composto por recordações e memórias dispersas. “Esta é uma homenagem que fiz a um bombeiro de Cacilhas que morreu há menos de dois anos. Estava de serviço à noite quando houve um incêndio. Todos se levantaram, menos ele. Quando os colegas chegaram ao quartel foram ver o que se passava e perceberam que estava morto. Morte súbita”, relata emocionado. “O pai dele, também bombeiro, veio aqui entregar-me as coisinhas dele porque não conseguia olhar para isto em casa”, conta o coleccionador.

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Foi em 2020, durante o primeiro confinamento que o ex-comandante dos Bombeiros de Cacilhas se lembrou de dar um propósito a todo o material que “guardava em caixotes” num armazém. “Nunca fui coleccionador”, confessa. “Era juntador. Guardava tudo o que me ofereciam com a esperança de, mais tarde, criar um museu”. E assim foi. Durante mais de um ano, Clemente Mitra foi construindo o espaço que hoje apresenta como o seu “recanto”.

Objectos que têm vida

A nostalgia parece dominar o ambiente e, ao olhar para algumas das fotografias expostas, apressa-se a explicar cada momento que ficou eternizado. “Aqui estou eu numa escada com outro colega a segurar o fogo na Rua do Ouro, no incêndio do Chiado [25 de Agosto de 1988]. Fomos chamados às seis da manhã e pediram-nos todos os meios que tivéssemos porque Lisboa estava a arder. Só percebemos a dimensão da situação quando atravessámos a ponte [25 de Abril] e vimos um cogumelo gigante de fumo. Estivemos ali dois dias seguidos, sem rendição. Foi uma coisa medonha, mas conseguimos com que apenas o edifício do Chiado ardesse”, relembra.

As memórias de quem presenciou “a morte de perto” são accionadas neste museu e trazem de volta os dias de trabalho duro. “Uma vez socorri uma criança com sete ou oito anos que foi atropelada enquanto andava de bicicleta na Charneca da Caparica. Uma coisa dramática, mas a criança estava viva. Fui com ela na ambulância até Lisboa, a tentar mantê-la viva. Chegámos ao hospital com ela nos braços e durante muito tempo uma equipa médica esteve de volta dela. Passado um bocado, o médico veio dar-me um abraço e dizer que se não fosse eu a criança tinha morrido. É o melhor pagamento que algum bombeiro pode receber”, refere com as lágrimas a teimar em aparecer.

 “Quem beber desta água nunca mais daqui sai”

Desde muito cedo que Clemente Mitra se sentiu ligado aos bombeiros. “É uma paixão de infância”, esclarece. Já em pequenino afirmava que não podia ser outra coisa, mas foi aos 17 anos, ao mudar-se para Cacilhas para trabalhar na Lisnave, que teve a certeza de estar destinado a uma causa maior. A sua casa, próxima do antigo quartel da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas, permitia-lhe acompanhar a rotina dos profissionais e “não demorou muito” para se alistar como bombeiro voluntário.

A devoção que sentia pelo salvamento estava à vista de todos e foi por mérito próprio que, em 1996, se tornou comandante. Esteve presente em incêndios de grande dimensão e orgulha-se de ter sido condecorado com o Crachá de Ouro e com a Fénix Nova, a segunda mais alta distinção dos bombeiros. Em 2005, abandonou o cargo de comandante para abraçar o cargo de Presidente da Corporação que levou com “seriedade” ao longo de 16 anos.

Ainda como Comandante do Quadro de Honra dos Bombeiros de Cacilhas, dia 8 de Janeiro entra num novo projecto, ao tomar posse enquanto membro do executivo da Liga dos Bombeiros Portugueses. “No quartel, costumávamos dizer ‘Quem beber desta água nunca mais daqui sai’. E é totalmente verdade”, admite.

 

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