Círios da Arrábida, entre as imagens e a memória (2)

Círios da Arrábida, entre as imagens e a memória (2)

Círios da Arrábida, entre as imagens e a memória (2)

, Professor
27 Outubro 2026, Terça-feira
Professor

Na obra “Círios da Serra da Arrábida”, que José António Carvalho editou e coordenou, além das três “narrativas fotográficas” dos círios de Azeitão, de Setúbal e das Pedreiras que têm a sua assinatura, há mais seis textos que lhe são devidos (o primeiro deles já referido na anterior crónica), que têm o objectivo de aprofundar o historial em torno dos círios, bem como narrar as suas realizações.

Assim, a abordagem que José António Carvalho faz recua até às lendas que lhes estão associadas, narrativas de origens desconhecidas mas que pretendem ser explicação para designações ou para vivências de determinados momentos históricos, como podemos verificar pelas transcrições das lendas da Senhora da Arrábida (em torno da história de Haildebrant) ou da Senhora da Pinha (associada à capela El Carmen). Quanto à primeira, a transcrição feita é originária da obra “Santuário Mariano” (tomo II, 1707), do estremocense Frei Agostinho de Santa Maria (1642-1728), sendo Haildebrant um frade agostinho (há versões em que esta figura seria um comerciante) que, na primeira metade do século XIII, integrando um grupo de viajantes que acompanhava um mercador, se viu salvo de forte tormenta ao largo da Arrábida, tendo desejado ali ficar como homenagem à imagem da Senhora que os protegeu e tendo ali construído uma ermida. Relativamente à segunda, a versão apresentada é também a relatada na mesma obra de Frei Agostinho de Santa Maria (tomo VII, 1721), referindo-se ao milagre operado por Nossa Senhora através da queda de uma pinha que impediu um homem de assassinar a esposa, de cuja seriedade duvidava, acrescentando o autor ter ouvido contada versão mais simples desta lenda, cujos protagonistas seriam um pastor e a sua esposa (foi também publicada versão desta lenda no jornal “O Sesimbrense”, nas edições de 16 e de 23 de Janeiro de 1944, em narração de J. Preto Guerra).

– PUB –

Ao relatar a festa do Círio de Azeitão ao Convento da Arrábida, José António Carvalho recorre a narrações a partir dos jornais “O Azeitonense” (1920) e “Diário de Notícias” (1906), bem como a testemunhos de Carlos Alberto Ferreira Júnior (1906-1997) e de Jaime Pinho. Documentalmente, este Círio teve início em Maio de 1845, mas a sua história teve alguns percalços, como a mudança de datas de realização ou o facto de, no século passado, ter havido a sua suspensão por mais de três décadas ou ainda o desencontro entre as partes religiosas celebradas na Arrábida e em Azeitão. A festa é descrita desde a partida de Azeitão até às celebrações no Convento da Arrábida, com transcrição das loas, texto que se repete de há anos, devidas ao poeta popular Miguel Caleiro (1876-1935) e a Maria Cândida Parreira (1877-1942).

Quanto ao Círio de Setúbal, também do seu historial não estiveram ausentes questões sensíveis — o Antigo Círio, fundado em 1839, interrompeu a actividade em 1884, intervalo que se manteve até 1891; em 1892, foi fundado o Novo Círio, ano em que também ressurgiu o Antigo Círio, tendo, até final da década de 1920, existido os dois Círios em simultâneo — episódio lembrado pelas décimas do poeta popular António Maria Eusébio, o “Calafate” (1819-1911) —, fenómeno que poderá ter a sua explicação em factores sociais. Relembra o autor que o acesso era feito por mar, a partir de Setúbal, até ao Portinho da Arrábida, costume que foi interrompido a partir de 1974 (com transporte de autocarro), mas retomado em 2015.

Para contar a história do Círio das Pedreiras à Capela de El Carmen, José António Carvalho lembra as descrições das festas realizadas nesta capela desde os relatos constantes nas “Memórias Paroquiais” de 1758, passando por notícias de “O Azeitonense” (1920) e por testemunhos mais recentes, podendo o leitor assistir à relação desta festa com a Casa de Palmela (na Quinta do Calhariz), ao papel desempenhado pelo Juiz da festa (a primeira vez em que a realização teve uma Juíza, Ana Fernandes, foi em 2020), à maneira como funcionavam as promessas (com bandeiras e quadros), ao significado das medalhas de acordo com os donativos, ao papel dos gaiteiros de Sesimbra.

Partilhe esta notícia
- PUB -

Notícias Relacionadas

, Mestre em Sociologia
26/10/2026
- PUB -
- PUB -

Apoie O SETUBALENSE e o Jornalismo rumo a um futuro mais sustentado

Assine o jornal ou compre conteúdos avulsos. Oferecemos os seus primeiros 3 euros para gastar!

Quer receber aviso de novas notícias? Sim Não