O processo de dessensibilização perante o horror está a resultar a todo o vapor.
Confrontados diariamente com imagens horríveis das guerras, começamos a reagir de forma quase automática: um olhar rápido, um “não quero ver isto” e, logo de seguida, um scroll ou um zapping rumo a outras notícias.
Para descanso de algumas consciências, surge então a desculpa predileta: “São notícias falsas.” “São imagens manipuladas.” “Isto parece Hollywood.”
E assim torna-se possível não acreditar. Não acreditar nas imagens que nos chegam da Ucrânia e de tantas outras zonas de guerra, mas sobretudo não acreditar nas imagens que ainda vão chegando de Gaza, da Cisjordânia, de crianças estropiadas, de idosos a serem violentados, de homens, mulheres e crianças a gritar de dor, de medo, de fome, de horror!
Torna-se quase possível não acreditar nos testemunhos, nos relatos de médicos, jornalistas e organizações humanitárias, é demasiado mau, demasiado desumano, demasiado sádico. Soldados israelitas a rir, a dançar e a festejar as atrocidades…Não, não pode ser verdade! Se fosse verdade, com toda a certeza o Mundo já se teria levantado contra isto!
Acreditamos, não acreditamos…e surge uma questão particularmente incómoda como exigir uma verificação independente quando o acesso independente ao terreno é limitado ou impedido?
Não se trata de acreditar cegamente em tudo o que vemos. Mas também não se pode transformar a impossibilidade de verificar diretamente cada acontecimento numa licença para rejeitar tudo aquilo que nos incomoda.
E é aqui que surge outra questão que raramente é colocada com a profundidade necessária – o que aconteceu à Autoridade Palestiniana?
Criada no contexto dos Acordos de Oslo como estrutura de autogoverno palestiniano, a Autoridade Palestiniana foi perdendo credibilidade. O processo de paz não produziu o Estado prometido, a sua legitimidade interna deteriorou-se e a divisão entre Fatah e Hamas, culminando na tomada de Gaza pelo Hamas em 2007, deixou os palestinianos politicamente fragmentados.
E essa divisão acabou por ser funcional para forças muito diferentes. Para o Hamas, uma Autoridade Palestiniana desacreditada e incapaz de alcançar resultados através da negociação reforça a narrativa de que a resistência é a única alternativa.
Para setores da direita israelita, uma liderança palestiniana dividida e enfraquecida permite sustentar que não existe um parceiro palestiniano credível para uma solução política. Há análises que apontam explicitamente para políticas dos governos de Netanyahu destinadas a fortalecer o Hamas em detrimento da Autoridade Palestiniana, precisamente para dificultar a criação de um Estado palestiniano.
Isto não significa que Israel tenha “criado” o Hamas, nem que os dois sejam aliados. Significa algo mais inquietante: adversários podem beneficiar da mesma realidade política sem serem aliados, neste caso, da inexistência de uma representação palestiniana unificada e credível.
Então, se acreditamos ou não nas imagens que agora nos vão chegando, ao que julgo, pelas imagens que ainda vão sendo captadas por alguns telemóveis, e se tudo aquilo que incomoda pode ser declarado falso porque não se consegue verificá-lo diretamente, então, seguindo essa lógica, poderíamos chegar ao absurdo de dizer que o próprio Holocausto também poderia ter sido apenas uma memória cinematográfica.
Mas o Holocausto não é uma ficção.
A lição deveria ser precisamente esta: não acreditar cegamente, mas também não negar cegamente e para isso é preciso investigar e questionar.
Compete ao Mundo forçar esse confronto de fontes, pois só desse modo se pode apurar o que de facto se está a passar.
E, sobretudo, não deixar que a repetição do horror nos torne indiferentes a ele, porque o perigo final talvez não seja já não querermos ver.
É já não querermos saber.