“Disse à minha mãe: não consigo viver aqui, é tudo muito diferente”, relembra Alessio Omrani, sorridente, pois hoje em dia nunca concordaria com esta afirmação. Tem apenas 19 anos, mas já carrega no peito histórias emocionantes que viveu desde que se mudou para Portugal.
Natural do outro lado do mapa, Canadá, veio para Setúbal há sete anos com o objetivo de trocar o frio pelo futebol, o seu maior sonho. O pai falara com um amigo que exercia um cargo na direção do Vitória Futebol Clube, que o aconselhou a vir para cá morar. Os Omrani experimentaram viver nesta cidade durante uma semana. Para esta família, parecia que estavam a viver num mundo oposto; habituados à neve e ao frio, apaixonaram-se pelo sol e o clima quente.
Quando cá chegou, não passava de um menino à deriva, como um pequeno barco lançado a um mar desconhecido. “Lá não podes chumbar até ao oitavo ano. Eu cheguei cá no sétimo, cheguei à minha turma e vi dois gajos com 18 anos, com barba. Eu era, tipo um puto gordinho com 12”, conta o canadiano com um riso tímido, reforçando o quão estranho foi o seu processo de adaptação, não pelo mal, mas pela diferença cultural. Apesar de tudo, sempre se sentiu bem-vindo pelos colegas de escola e de equipa, que nunca fizeram nenhum tipo de distinção. Sempre o ajudaram a aprender a língua e os costumes portugueses.
“Eu quero viver cá em Portugal, mas não sei se eu quero ficar em Setúbal”, revela o jogador. Mesmo sentindo-se em casa, receia o seu futuro profissional. Mostra o desejo de querer viver do futebol e pensa que é algo fora do alcance nesta cidade. O futebolista gosta de viver cá, mas para trabalhar não é opção.
Embora aqui esteja há quase uma década, ainda não sente que seja totalmente parte do concelho. Conta que “algumas vezes eu digo uma palavra e pronto, eles conseguem perceber que sou estrangeiro” e isso acaba por incomodá-lo, pois lembra-se que não é natural de cá, mesmo que o seu coração sinta que vive aqui desde sempre.
No ano em que o distrito de Setúbal celebra 100 anos, a cidade reflete memórias, conquistas, desafios e fraquezas. Para muitos habitantes, este centenário simboliza orgulho e um sentido de identidade. Para outros, como Alessio Omrani, representa sobretudo um marco do local que o adotou. “Sinceramente, parabéns à cidade”, admite com uma honestidade que lhe é natural, quase incrédulo pelo distrito completar um século.
Ainda assim, reconhece tudo o que Setúbal lhe deu e continua a dar. Diz-se “orgulhoso” por poder fazer parte da história deste distrito. Desde o mar, às pessoas simpáticas, à tranquilidade, encontrou aqui um lugar que o ajudou a crescer.
A entrada no Ensino Superior, os amigos e pessoas especiais que foi “colecionando ao longo do tempo” transformaram-se nos capítulos mais luminosos da sua história em Portugal. De olhos postos no futuro, imagina uma cidade ainda mais viva: com mais espaços e oportunidades. Sonha com o Parque Urbano da Várzea terminado. Gostaria de ver a vida noturna florescer, “há muito espaço que não é usado”, comenta, com a esperança de que, futuramente, haja mais ambientes de diversão.
Nos dias que passam, Omrani sente que Setúbal não é apenas um sítio, mas sim uma parte de si. Mesmo que não se sinta um setubalense de raiz, sabe que este é o seu lugar. Poderá ir viver para longe mas, lá no fundo, sabe que esta será para sempre a sua casa.
Texto publicado por Beatriz Eustáquio e Beatriz Lopes na edição especial da revista “Perfil Local” da ESE/IPS