Onde a tradição respira e a cidade se revela

Onde a tradição respira e a cidade se revela

Onde a tradição respira e a cidade se revela

No Mercado do Livramento, entre pregões, gelo e cheiro a mar, encontramos Ana Maria Romão Cancela, setubalense de 62 anos e comerciante há 34. “Nasci aqui e nunca quis sair daqui”, afirma com firmeza. Ana Cancela começou desde muito cedo. Casou aos 14 anos, foi mãe logo a seguir e entrou no trabalho por necessidade. Iniciou-se nas limpezas e, pouco depois, mergulhou no mundo do peixe. “Já vendo há uns 42 anos. O mercado é uma segunda casa”, conta. Recorda rotinas duras, como acordar às duas da manhã, ir à lota, seguir para a banca e só parar a meio da tarde.

Casa, filho, negócios, tudo a seu cargo. “Não foi fácil, mas a minha conquista é ter vencido na vida. Fiz o que podia e consegui”. Hoje, descreve o trabalho com paixão. “E ter a profissão que eu tenho, eu gosto daquilo que faço”. Essa paixão convive com a preocupação crescente pelo futuro da profissão. O comércio local perdeu força e as grandes superfícies comerciais ganharam terreno. “Deram asas ao comércio dos hipermercados e isso matou os mercados. A Baixa está morta”. Para a comerciante setubalense, as novas gerações afastaram-se do contacto direto com alimentos. “A juventude acha que tudo nasce no supermercado”.

Defende a praça pela frescura, pelo produto nacional e pela saúde. “É mais caro, sim, mas comes como deve ser”, diz, lembrando que a qualidade tem custo e valor. Ainda assim, nota que jovens só se aproximam “quando são mães”, quando ganham consciência alimentar. Sobre Setúbal, fala com um amor crítico. “Sinto alegria quando digo que sou daqui. Entrar na cidade é como entrar num mundo totalmente diferente”. Mas acredita que o concelho poderia fazer mais. Faltam oportunidades, trabalho e investimento, sobretudo para os jovens. O turismo, por exemplo, é algo que gostaria de ver crescer. “Setúbal merece mais”, afirma.

Identifica a Serra da Arrábida e Tróia como os pontos que melhor representam a cidade, mas lamenta o abandono do centro. “A Baixa precisava de algo que chamasse as pessoas”. Na sua vida, ser mãe é a memória mais marcante. O maior orgulho, porém, são os valores que carrega, trabalho, bondade e família. “Tenho um lho maravilhoso e três netos. Isso já é bom, é maravilhoso”. Ao longo dos anos, aprendeu que a cidade se molda ao esforço de quem a habita. Por isso, acredita que o futuro também depende de quem não desiste. “Setúbal precisa de investimento, mas também de vontade”, diz.

Enquanto recupera de cirurgias que a retiraram temporariamente da banca, continua ligada ao mercado, acompanhando os negócios e preocupando-se com quem lá trabalha. Mantém dois empregados e uma sobrinha que luta por estabilidade, espelho das incertezas que observa no setor. Olhando para o futuro, não esconde a incerteza. “Está muito incerto”, admite, preocupada com o desemprego, a falta de habitação acessível e a mudança na forma como se vive na cidade. “Antigamente vivíamos mais à vontade. Hoje há mais medo”. Apesar de tudo, a mulher do mercado não perde a esperança. Vê Setúbal como um lugar com potencial por explorar, belo, mas à espera de ser cuidado.

Se um dia o comércio voltar a florescer, acredita que será porque as pessoas redescobriram o valor de saber de onde vêm os produtos e quem os vende. No fim, resume a sua terra numa frase curiosa, “Setúbal é mais boa madrasta do que boa mãe”. Exigente, dura e nem sempre justa, mas capaz de acolher quem insiste. E Ana Cancela insistiu, uma batalha que sente ter vencido. Para ela, vender peixe é mais do que um ofício, é manter viva uma identidade que, como o mar que abastece o mercado, está sempre a mudar, mas nunca desaparece.

Texto publicado por Gonçalo Domingues na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS

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