Uma manchete lê-se em segundos. As suas consequências podem acompanhar uma família durante anos. Vi o meu nome associado a acusações graves. Quem lia encontrava suspeitas e números de processos. Em casa, havia uma realidade que não cabia na notícia: um pai ausente, pessoas à espera e uma vida familiar que deixou de ser a mesma.
Desde 2018, vivi acontecimentos judiciais que marcaram profundamente a minha vida. Estive privado da liberdade em Portugal durante uma parte significativa de 2018 e 2019. Houve fases e fundamentos legais distintos, que importa analisar separadamente. Mas há algo que os autos não conseguem medir: os momentos que deixei de viver com os meus filhos. O lugar vazio à mesa. A ansiedade de quem esperava em casa e tentava manter de pé a vida quotidiana.
A dor de uma família não substitui a prova de qualquer erro. Mas ignorar essa dor também não conta a história inteira. Os meus familiares tiveram de lidar com a incerteza, com dificuldades e com a exposição pública de acusações que não devem ser confundidas com culpa demonstrada. Nenhuma decisão devolve o tempo perdido entre um pai e os seus filhos.
Há factos que merecem ser conhecidos e podem ser verificados. No processo 694/17.8TELSB, um despacho do Tribunal de Setúbal, de 23 de novembro de 2022, refere expressamente a minha absolvição. Noutro processo, o 1053/23.9T9STB, a sentença de 26 de junho de 2024 absolveu-me de dois crimes de falsificação de documento. São decisões concretas, com datas e referências identificáveis. Não as confundo com o resultado de outros processos: cada caso exige a sua própria verificação.
E pergunto: se uma acusação merece uma notícia, não merece também o seu desfecho ser conhecido com o mesmo rigor? Uma manchete continua a circular quando muitos leitores já perderam de vista o percurso judicial. A reputação de uma pessoa não se recompõe automaticamente com uma decisão favorável. E o silêncio sobre o que veio depois pode prolongar o peso do que foi publicado antes.
Já não vivo em Setúbal. Hoje moro na zona de Lisboa, mas a mudança de cidade não apagou as perguntas que estes anos deixaram. Como foram conduzidas determinadas investigações e diligências? A Polícia Judiciária e as restantes entidades atuaram sempre de forma correta e proporcional? Existiram falhas que devam ser esclarecidas? Não apresento suspeitas como factos provados. Peço escrutínio independente, documentos e a possibilidade de todos os envolvidos responderem.
Continuo igualmente à procura de esclarecimentos sobre questões patrimoniais e administrativas ligadas ao meu percurso judicial. O que foi decidido? O que foi efetivamente executado? Porque subsistem dúvidas? Não peço privilégios nem respostas antecipadas. Peço explicações concretas, apoiadas nos documentos.
Não peço a este jornal que tome partido. Peço que faça aquilo que o jornalismo tem de mais valioso: cruzar fontes, examinar provas, ouvir as instituições e fazer perguntas difíceis. Também a mim. A confiança na Justiça constrói-se com independência; a confiança nas instituições, com transparência.
Não quero que a minha dor substitua as provas. Quero que as provas tenham lugar na história, ao lado das consequências humanas que os processos não conseguem apagar.
Porque uma sociedade que noticia a acusação, mas deixa por contar o que aconteceu depois, arrisca-se a deixar uma família inteira presa a uma única manchete.
Michel Alexander da Silva Moreno