Montijo sem cultura e com censura

Montijo sem cultura e com censura

Montijo sem cultura e com censura

7 Junho 2026, Domingo
Jurista e membro do Livre

Há momentos na vida de uma comunidade em que se torna inevitável fazer perguntas incómodas sobre o caminho que queremos para o futuro. No Montijo, tem vindo a afirmar-se um padrão preocupante na forma como alguns encaram a cultura, a educação e os direitos fundamentais. Não se trata de um episódio isolado, mas de uma visão do mundo que importa discutir com clareza.

Recentemente, o Partido Chega votou contra o apoio da autarquia à companhia de teatro Mascarenhas Martins — uma estrutura profissional com trabalho continuado no concelho e apoiada pela Direção-Geral das Artes. Fê-lo com argumentos que desvalorizam a criação artística, reduzindo-a ao número de bilhetes vendidos e classificando-a como “ativismo de esquerda”.

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Esta posição ignora, propositadamente, uma realidade bem conhecida: a cultura é, em Portugal, um setor estruturalmente subfinanciado e marcado pela precariedade. Criadores,  técnicos e estruturas trabalham muitas vezes com recursos escassos, sustentando projetos de valor essencial para a vida cultural nas comunidades. Defender a cultura é, por isso, também defender condições dignas para quem a faz e o direito de todos ao acesso à criação artística.

Mas a questão é mais profunda. Quando se tenta definir o que é ou não aceitável na criação cultural, abre-se a porta à limitação da liberdade artística. E quando a cultura é tratada como supérflua (ou pior, como suspeita), perde-se o espaço do pensamento crítico, diversidade e participação.

Este padrão repete-se noutras posições. Na Assembleia Municipal, o mesmo partido apresentou uma recomendação que procura reescrever a história, reduzindo o 25 de Abril a um mero golpe militar, e propondo o envio desse texto às escolas do concelho para ser transmitido nas aulas de História e Cidadania. Trata-se de uma clara tentativa de interferência política na educação, que desrespeita a autonomia pedagógica e expõe uma contradição evidente: quem se diz contra a “ideologia na escola” não hesita em querer impor a sua. A escola deve ser um espaço de conhecimento plural — não um instrumento de imposição ideológica. Se é assim na oposição, o que fariam com responsabilidades governativas?

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Já no dia 17 de maio, quando o município assinalou o Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia com o içar da bandeira LGBTI, assistimos a uma reação desproporcionada e discriminatória. Um gesto simples de reconhecimento e inclusão foi transformado em motivo de ataque político, uma vez mais contra as pessoas e os seus direitos.

Estes episódios não estão desligados. Traduzem uma visão que desvaloriza a cultura, procura condicionar o conhecimento e resiste à afirmação da diversidade. Uma visão que contrasta com a ideia de uma comunidade aberta, onde a igualdade e a participação são valores centrais e em que a cultura é um pilar da liberdade humana através da criação, do acesso à arte, pensamento crítico e diversidade.

E quando estes valores começam a ser atacados, não é apenas o setor cultural que está em risco: somos todos nós.

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Que Montijo queremos, então? Um concelho fechado sobre si próprio, onde se desconfia da cultura, se tenta condicionar o ensino e se atacam direitos? Ou uma comunidade aberta, que valoriza quem cria, que respeita a diversidade e que investe no seu futuro coletivo?

Eu espero que se escolha o segundo caminho. Um caminho com mais cultura, mais liberdade e mais democracia — porque é isso que faz uma comunidade verdadeiramente forte, justa e viva.

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