Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (3)

Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (3)

Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (3)

, Professor
2 Junho 2026, Terça-feira
Professor

De entre os três sermões de Bartolomeu de Gusmão já indicados, uma palavra mais merece o que é dedicado a Nossa Senhora do Desterro, padroeira dos emigrantes. Proferido em Coimbra, foi especialmente dirigido aos “académicos ultramarinos”, isto é, os estudantes originários do Brasil (de resto, quando foi publicado, teve dedicatória para Manuel de Matos, brasileiro e professor da Universidade de Coimbra). Elogiando os seus conterrâneos, Gusmão faz algumas reflexões sobre o desterro, bem próximas da experiência que ele viveu, logo a começar pela viagem — “Que coisa há mais horrível que uma viagem dilatada por mar? A nau em contínuos balanços, o pavimento a fugir debaixo dos pés; que função fica inteira ou que parte no corpo humano que não padeça? (…) Já se se levanta uma tormenta, aqui é o horror. (…) Assim busca a sabedoria quem conhece o seu preço. Assim se lavra uma coroa de glória e de imortalidade, a si e a esta Universidade quem a vem buscar de tão longe, por tantos e tão evidentes perigos.” Depois, pesa a condição da distância e da saudade — “Eu bem sei que todos os que vêm a esta Universidade deixam a pátria; mas nem todos como a Senhora do Desterro. Os que não são ultramarinos deixam-na para a tornar a ver todos os anos. (…) Ausência que não chega a ano não é ausência nem pode produzir saudades. (…) Só os Ultramarinos imitam fielmente a Senhora do Desterro, que também passou sete anos desterrada sem ver a pátria. (…) Que peito há tão de bronze que não arrebente de dor e de saudade? E que a tudo isto se façam surdos e insensíveis os Ultramarinos, para vir buscar a Sabedoria? (…) que admiração e que alegria para a nossa Universidade.” O sermão conclui-se com um apelo à Virgem, depois de lhe pedir a protecção: “Que gosto tereis vós mesma de ver os vossos desterrados servir de luz ao reino, de honra à sua pátria e de crédito a esta Universidade, nos Lugares, nas Cadeiras e nos Tribunais? (…) Que será quando, livres do comum desterro, os virdes triunfantes na glória?”

O quarto sermão que Daniel Pires inclui neste grupo das “Obras de Bartolomeu de Gusmão”, o “Sermão da Paixão”, surge acompanhado da nota de se tratar da transcrição de um “manuscrito atribuído a Bartolomeu de Gusmão, existente na Biblioteca da Ajuda”. Diferente de todos os outros, o sermão é construído sobre um discurso de Jesus na primeira pessoa, quando, já crucificado, se dirige aos crentes — “Povo meu (e não cuides que falo com os que agora acabam de crucificar-me), falo contigo, Povo amado, Gente singularmente escolhida”. O discurso é uma reflexão sobre o sofrimento até ao momento em que se entrega nas mãos de Deus, ao mesmo tempo que uma despedida, em que a única intervenção do narrador aparece no final do texto, depois de o crucificado se dirigir ao Pai — “Dizendo isto e dando um grande brado, inclinou um pouco a cabeça o redentor do mundo e expirou.”

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O livro “Obras de Bartolomeu de Gusmão” conclui com alguns documentos oficiais (correspondência e petições alusivas aos seus inventos) relativos ao padre-cientista.

Quando, em Santos (Brasil), nasceu o futuro padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685-1724), já o portuense Tomás Pinto Brandão (1664-1743) era adulto e vivia no Brasil desde 1682, num trajecto que o levou a ser detido várias vezes por “travessuras e excessos”, marca que se lhe colou, entre outras razões, pelo tom satírico em que foi pródigo. Foi esse o recurso que utilizou para caricaturar a criatividade de Gusmão, em quem residia o espírito de inventor e de cientista, construtor da “máquina de navegar pelo ar”, quando escreveu um poema dedicado ao padre, que dizia: “Meu Padre Bartolomeu, / eu, segundo o meu sentir, / não vi outro mais subir / de quantos vi voar eu: / o conceito é como meu, / que o não pude achar melhor; / porém se como Orador / tanto sabeis levantar, / não me deveis estranhar / que vos chame Voador. // (…) // Por força do vosso estudo, / por jeito do vosso estado, / para tudo sois azado, / tendo pena para tudo; / e assim de estilo não mudo / no estranho do meu louvor / (se o não tomais por labéu) / que até chegares ao Céu / haveis de ser Voador.” (décimas reproduzidas na obra “Pinto Renascido, empenado e desempenado: Primeiro voo”, de 1732). O texto de Brandão, jogando com palavras, ironiza, mas também reconhece a Gusmão a qualidade de escritor, de orador, de criador. Aliás, aqueles que ironizaram sobre a figura e obra de Gusmão acabaram por não ofuscar o valor e o saber do padre cientista — assim aconteceu também com José Soares da Silva (1672-1739), que, na sua “Gazeta em forma de carta”, ridicularizou o jovem Gusmão contando exagerada e maliciosamente o seu saber, com atributos que, uns séculos mais tarde, José Saramago aproveitaria, com engenho, para apresentar, como inovadora, a personagem Gusmão no seu “Memorial do Convento” (passo mencionado na primeira parte desta crónica).

O volume que Daniel Pires organizou torna-se um contributo indispensável para o conhecimento das ideias de Bartolomeu de Gusmão. Nunca mais poderemos passar pela estátua ou pelo painel azulejar que o evocam no aeroporto de Lisboa (obras devidas a Martins Correia e a Paulo Guilherme d’Eça Leal, respectivamente) sem pensarmos na justa homenagem que é devida a este pioneiro do século XVIII, simultaneamente um louvor ao saber e à criatividade.

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