Os 9 concelhos da Península de Setúbal estão perto de Lisboa, mas longe do élan da capital. A região atrai muita população, entre 2021 e 2025 cresceu 2 pp acima da Grande Lisboa, mas tem dificuldades em transformar essa capacidade em melhores condições de vida. O desemprego supera a média nacional, com destaque para o flagelo do desemprego jovem. As rendas dos novos contratos de habitação estão 19% acima da mediana nacional. Em 2024, o PIB per capita, em PPC, correspondia a 67% do país e a 55% da média europeia. Por isso, a convergência ainda é uma miragem. Além disso, a habitação, o risco de pobreza e a mobilidade revelam problemas estruturais que precisam de ser ultrapassados.
Mas vem aí um tempo novo. A reorganização estatística de 2024 individualizou a Península de Setúbal como NUTS II, separando-a da Grande Lisboa e tornando visíveis diferenças económicas e sociais que a anterior agregação diluía. Foi uma grande conquista para a Região, pela qual os eleitos socialistas do distrito se bateram com sucesso. Esta conquista permitirá financiamentos mais ajustados à sua realidade no próximo ciclo europeu. Contudo, nada disto significa que as dificuldades e os entraves serão ultrapassados como que por magia. A promessa de mais financiamento exige planeamento, prioridades e decisão firme, com base numa visão estrutural do futuro.
A Península de Setúbal precisa de “pensar em si” antes de continuar a ser “apenas” uma âncora industrial do país. As suas capacidades produtivas, industriais, portuárias e marítimas devem estar, primeiro, ao serviço do desenvolvimento regional. Quando isso acontecer, o contributo para Portugal inteiro será ainda mais denso e mais sustentável.
A região precisa de aumentar a riqueza que produz, mas, sobretudo, de assegurar que os seus habitantes beneficiam dela. Esse deve ser o ponto de partida. É fundamental subordinar os investimentos e as grandes infraestruturas previstas, como o novo aeroporto, a terceira travessia do Tejo ou o corredor ferroviário para Madrid, a uma cúmplice visão regional do território. Só estes 3 mega projetos supra regionais equivalem a 15 mil milhões de investimento!
A Península é nossa e não pode ser apenas o território para fixar investimento. Precisa de estar preparada para retirar dele o valor acrescentado para o seu povo. Isso exige antecipar as necessidades de qualificação dos trabalhadores, preparar as empresas locais para as novas oportunidades e responder à pressão sobre a habitação e os transportes, assim como acautelar os impactos no território. O investimento só cumprirá o seu potencial regional se criar emprego de qualidade, fortalecer as empresas locais e melhorar a vida das comunidades.
Os atores regionais devem, por isso, organizar-se desde já para participar nas decisões e assegurar que uma parte duradoura do valor criado fica na Península. Não basta receber investimento. É preciso ter capacidade para o transformar em desenvolvimento regional. A medida do sucesso será quanto dessa riqueza chegará às famílias, aos trabalhadores e às empresas da Região!