Círios da Arrábida, entre as imagens e a memória (1)

Círios da Arrábida, entre as imagens e a memória (1)

Círios da Arrábida, entre as imagens e a memória (1)

, Professor
21 Outubro 2026, Quarta-feira
Professor

De significar “vela grande de cera, usada em igrejas, procissões, funerais”, a palavra “círio” passou também a designar a “procissão ou festa religiosa com romaria que se dirige de um lugar para outro, levando uma ou mais dessas velas”, conforme indica o “Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea”, da Academia das Ciências de Lisboa (2001). Enquanto manifestações de carácter religioso, os círios têm estado muito ligados à serra da Arrábida, particularmente a espaços como o Convento da Arrábida, a Capela d’El Carmen, a Lapa de Santa Margarida ou o Santuário do Cabo Espichel.

Dando continuidade ao trabalho iniciado em 2023, ano em que publicou estudo sobre o Círio de Nossa Senhora da Tróia, José António Carvalho editou agora a obra “Círios da Serra da Arrábida”, em que, além das três “narrativas fotográficas” e de textos de contextualização de sua autoria sobre o Círio de Azeitão, o Novo Círio de Setúbal (ambos ao Convento da Arrábida) e o Círio das Pedreiras (à Capela d’El Carmen), apresenta também estudos de âmbito histórico e social assinados por Joaquina Soares, Ruy Ventura, Rodrigo Manuel Ribeiro e Rui Manuel Mesquita Mendes, recorrendo ainda à ilustração de Helena Mancelos.

– PUB –

Logo no texto de abertura, José António Carvalho, recorrendo a bibliografia específica de Heitor Baptista Pato, menciona as cinco características destas romarias estremenhas: “o epicentro do culto situa-se nas freguesias, tanto quanto no santuário; as freguesias combinam por vezes uma ordem de giro entre si; celebram-se em datas próprias; representam um voto comunitário, não individual; são organizadas pelo povo, à margem do clero”. Estas marcas, sobretudo a da organização, ajudam a perceber a vivência popular, com sentido religioso, manifestada pelas populações, vincada nos tempos, no compromisso e na adesão local, como explicam as interrupções feitas na história de alguns círios e até a existência de dois círios em simultâneo (como aconteceu na história dos Círios de Setúbal, em que o Antigo, criado em 1839, foi interrompido entre 1884 e 1891, tendo surgido o Novo em 1892, ano em que o Velho Círio também reanimou, tendo funcionado os dois em simultâneo até 1929, sendo oportuna a citação do estudo de Artur Alberto Pereira a dar conta da razão social de tal coexistência — “Enquanto o Antigo Círio terminava e recomeçava por vontade de uma elite, o Novo Círio, radicado no Bairro de Troino, fazia-se e faz-se pela espontaneidade popular.”)

No capítulo “Arrábida, uma montanha mágica”, Joaquina Soares contextualiza as características biofísicas da cadeia montanhosa, associadas às modalidades de ocupação, conferindo à Arrábida o papel de “coluna vertebral da Península de Setúbal”. Depois de mencionar as formações geológicas, a riqueza da vegetação e da fauna, a autora chama a atenção para a ligação entre a espiritualidade e a Natureza, recuando até à explicação da origem provável do nome (“al-Rabita”), relacionado com um espaço de “retiro para oração e preparação de monges guerreiros”, passando pelo Oráculo da Arrábida (possível origem do culto a Nossa Senhora da Arrábida), constante na relação de construções religiosas enviada por D. Dinis ao Papa, e mostrando a persistência das marcas religiosas na cadeia arrábida desde o Cabo Espichel, o que realça “a evidente sacralização deste território, especialmente a partir das antigas sociedades camponesas”.

Ruy Ventura, no capítulo intitulado “O Mosteiro de Santa Maria da Arrábida”, recua aos primeiros tempos do século XIII, até ao Oráculo da Arrábida, passa pelo efeito da Ordem de Santiago ao criar a Comenda de Santa Maria da Arrábida, chegando à construção do eremitério por Frei Martinho de Santa Maria e por S. Pedro de Alcântara, no século XVI, e relatando ainda as inovações que foram sendo criadas no espaço pelos proprietários e protectores. Aspecto importante desta abordagem é o de indicar nomes dos autores das obras escultóricas e de mencionar a sua importância, permitindo-se chamar a atenção para o estado actual da imagem do Senhor dos Aflitos, numa das capelas do Convento Velho, de autoria desconhecida (mas, por certo, de “um dos melhores escultores portugueses” da época) — “Infelizmente, esta obra de arte, uma das mais fortes de todo o Convento, foi completamente vandalizada por um repinte sem ética, que é urgente remover, para lhe devolver a dignidade perdida.” O texto relembra a antiguidade dos Círios, talvez desde a Idade Média, percurso sujeito a reforma ou retoma no século XIX, e conclui com as observações de três poetas ligados à espiritualidade arrábida — Frei Paulino da Estrela, Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama —, considerando Ruy Ventura sobre essa mesma dimensão: “Quem sobe à Arrábida e fita o seu entorno com olhos de ver tem, de facto, a sensação forte de entender melhor o mundo, com outra clarividência, despojando-se do que nenhuma falta lhe faz. A natureza envolvente e o carácter artístico do seu edificado e do seu recheio, belo sem deixar a pobreza franciscana, falam-nos de uma essência que é preciso encarar e fazer nossa.”

Partilhe esta notícia
- PUB -

Notícias Relacionadas

, Ex-bancário, Corroios
20/10/2026
- PUB -
- PUB -

Apoie O SETUBALENSE e o Jornalismo rumo a um futuro mais sustentado

Assine o jornal ou compre conteúdos avulsos. Oferecemos os seus primeiros 3 euros para gastar!

Quer receber aviso de novas notícias? Sim Não