Com o propósito de se apresentarem novas soluções técnicas e políticas para a mitigação dos impactes das alterações climáticas no setor das águas, teve lugar durante a manhã do dia 29 de abril passado, no Auditório da EXPOBEJA, em Beja, uma exposição sobre a recarga controlada de aquíferos (no Painel de casos de estudo e soluções). Esta apresentação esteve a cargo de Nuno Correia (Engenheiro do Ambiente e Coordenador de Gestão de Origens das Águas Públicas do Alentejo), que resumiu um projeto inovador envolvendo a zona da Comporta, em Alcácer do Sal. Com efeito, o projeto europeu MARCLAIMED (de que já se fez notícia em O SETUBALENSE em 18 de novembro de 2025) visa estudar recargas alternativas de aquíferos, contemplando a sua viabilidade técnica e a aceitação social. A zona da Comporta (caso de estudo em Portugal) e o estuário do Sado têm vindo a afirmar-se como um território particularmente sensível no que respeita à gestão dos recursos hídricos, onde a pressão agrícola, turística e urbana se cruza com a vulnerabilidade natural dos sistemas aquíferos. Neste contexto, o caso de estudo associado ao projeto MARCLAIMED (sob coordenação do Laboratório Nacional de Engenharia Civil) introduz uma oportunidade relevante para repensar não apenas as práticas de gestão tecnológica da água, mas o seu próprio enquadramento institucional e social. Aponta-se para uma governança multinível da água, em Portugal, indiciando-se uma mudança de paradigma na forma como os aquíferos são geridos, de reservas passivas para sistemas ativos de gestão, armazenamento e recarga.
A recarga controlada de aquíferos, incluindo o recurso a águas residuais tratadas (questão social mais crítica), surge aqui não apenas como uma solução de engenharia, mas como uma reconfiguração profunda da governança da água, exigindo modelos multinível de decisão e a articulação entre entidades centrais reguladoras, administrações regionais, autarquias e diferentes utilizadores do território. Esta abordagem implica também uma nova leitura sociotécnica do problema, em que infraestruturas, conhecimento científico e práticas sociais são indissociáveis, e em que a gestão da água envolve interdependências ecológicas, económicas e sociais complexas. No entanto, a inovação técnica traz consigo desafios significativos de aceitação social, particularmente quando se aborda a reutilização de águas residuais tratadas para recarga de aquíferos. A perceção pública de risco, a confiança nas entidades gestoras e a transparência dos processos tornam-se elementos-chave para a viabilidade destas soluções. Sem uma estratégia robusta de comunicação e participação, o potencial técnico pode não se traduzir em implementação efetiva no território. Resta ainda refletir sobre os custos das novas soluções e a distribuição dos seus benefícios sociais. Como conciliar as pressões dos usos da água para o turismo com uma agricultura intensiva, e promover a coesão social em Alcácer do Sal?
Neste cenário, Alcácer do Sal pode assumir-se como um laboratório vivo de inovação para uma governança da água, onde se testam simultaneamente soluções técnicas, informação sobre a qualidade e quantidade da água disponível e a participação das comunidades locais. O verdadeiro alcance do projeto MARCLAIMED reside precisamente nesta capacidade de integrar ciência, política e sociedade civil na construção de novos futuros possíveis para a gestão da água em territórios vulneráveis.