Nos finais de agosto, em Setúbal, largas centenas de pessoas convergem para o Festival Internacional de Teatro. É assim desde há 31 anos. Tudo somado serão vários milhares de pessoas envolvidas e tocadas por este evento incontornável e sem fronteiras.
O Forum Luisa Todi, o Auditório e a Tenda da Escola Secundária Sebastião da Gama acolhem memoráveis espetáculos, de companhias e artistas nacionais e de vários continentes. O Festival salta para as ruas: Parque do Bonfim, Praça de Bocage, Jardim de Palhais, Claustros do Convento de Jesus, Auditório do Largo José Afonso. Transborda para Palmela. Espalha-se pela Casa da Cultura, Sociedade União Setubalense. Complementa-se com expressões de outras artes, a começar por artistas setubalenses: pintura, fotografia, música, circo, dança.
Como diz Augusto Boal: para além das pessoas que se dedicam a esse ofício ou profissão de fazer teatro no palco, todas as outras pessoas são, somos, teatro. O ser humano é o único animal que carrega em si o ator e o espectador de si mesmo: ao falarmos, ao escolhermos a roupa mais adequada para o sítio para onde vamos, ao gesticular, ao escolher o que dizemos em cada circunstância, ao compor as frases quando dialogamos com alguém, ao ouvir a própria voz, nós somos teatro. Simone de Beauvoir fazia notar que a arte em geral e o teatro nos ajudam a recuperar o fascínio pela existência, a universalizarmos as experiências individuais, para superar a solidão e alcançar o consolo da fraternidade.
Tudo isto tem a ver com o movimento de troca de ideias e partilha de sentimentos que o Festival de Teatro de Setúbal proporciona. E por detrás está a companhia Teatro Estúdio Fontenova, que conseguiu um feito raro e notável: criar um público de teatro, atento e disponível para a surpresa, um público de todas as idades incluindo as crianças: um público cosmopolita que se deixa transportar pelas culturas europeias, das Américas, de África, através de inúmeras companhias e artistas que já passaram por Setúbal.
O Fontenova é uma companhia solidária e acolhedora, tem as portas abertas para artistas e grupos que precisam de apoio, para escolas e estudantes, apesar de funcionar em instalações precárias e de ser uma instituição não comercial. Faz intercâmbios com dezenas de grupos de todo o país, incluindo as ilhas. Já fez parcerias com a Gulbenkian, o Festróia. Os apoios de que dispõe são essencialmente do governo central, através de protocolos em que se compromete nomeadamente a promover o respeito pelos direitos humanos e a diversidade cultural. E da autarquia. Tais apoios destinam-se sobretudo ao público, tornando o preço dos bilhetes mais acessíveis. Por isso a Câmara tem que reforçar o apoio à cultura.
Por tudo isto, não deixa de ser mesquinha e absurda a atitude recente do partido Chega que na Câmara de Setúbal defendeu que o Teatro Estúdio Fontenova e o TAS não mereciam ser apoiados: o primeiro porque tinha manifestado apoio à primeira Marcha LGBT de Setúbal e o segundo porque tinha em cena uma peça intitulada “Manual do bom fascista”, de Rui ZinK . Hoje como há cem anos a extrema-direita lança-se furiosamente contra a cultura e os direitos humanos. Como dizia um líder nazi alemão: Quando me falam de cultura saco logo da pistola!