Há pessoas que se cruzam connosco na nossa vida que não nos elevam; revelam apenas o peso que carregam dentro de si.
Vivemos tempos estranhos. Nunca se falou tanto de empatia, respeito e inclusão e, ainda assim, nunca foi tão comum assistir à banalização da agressividade nas palavras, à arrogância travestida de opinião e ao desprezo silencioso pelos outros.
Há pessoas que caminham entre nós com uma estranha necessidade de diminuir o próximo. Não constroem, destroem. Não elevam, rebaixam. Não dialogam, impõem arrogância. E fazem-no com uma convicção quase inabalável de que estão sempre certas, como se o mundo fosse um espelho onde apenas a sua própria imagem merece existir.
Estas pessoas não vivem apenas nos extremos da sociedade. Estão no trabalho, onde minam colegas em silêncio ou em público. Estão na família, onde palavras duras deixam marcas que, por vezes, levam muito tempo a sarar. Estão entre pseudoamigos, onde a competição substitui a lealdade. E, por vezes, de forma ainda mais dolorosa, surgem também no seio da própria Igreja, onde se esperaria acolhimento, mas onde, tantas vezes, se encontra julgamento.
Lembro-me, com tristeza profunda, de uma história da minha infância. Um vizinho ensinava o filho a reagir com violência sempre que era contrariado. Dizia-lhe que tinha de mostrar força, que tinha de provar que era “homem”. Aquilo que, na altura, me parecia apenas estranho, hoje faz-me perceber muito mais: a violência não começa na idade adulta. Aprende-se. Cultiva-se. Normaliza-se.
E talvez alguns desses adultos que hoje ferem com palavras, que humilham, que esmagam os outros com a sua arrogância, sejam, afinal, o reflexo dessas aprendizagens distorcidas.
Desde criança, muitas vezes fui criticado por ser diferente. Por ser sensível. Por estar próximo das pessoas. Por tentar ser amigo até daqueles que, claramente, não gostavam de mim. Diziam-me que era parvo, ingénuo e tinha falta de firmeza.
Mas hoje sei: não era nada disso. Era uma escolha.
A escolha de não endurecer num mundo que empurra para a frieza. A escolha de não retribuir com a mesma moeda. A escolha de acreditar que a proximidade humana vale mais do que qualquer jogo de poder ou vaidade.
Estive muitos anos na política. Acreditei, e continuo a acreditar, que é um espaço nobre, onde o mais importante deveria ser servir. Mas afastei-me. Não por desistir das pessoas, mas por, em muitos casos, não me rever naquele ambiente.
Porque, demasiadas vezes, encontrei um espaço mal frequentado, não pelas instituições, mas por atitudes. Uma realidade onde o interesse pessoal se sobrepõe ao bem comum, onde alguns pensam primeiro em si e nos seus e só depois, se sobrar tempo, nos outros.
Assisto a debates televisivos onde o objetivo deixou de ser trocar ideias e passou a ser impor vozes. Onde se grita mais do que se escuta. Onde, por momentos, a política perde a sua dignidade e se transforma num ruído constante.
E é aqui que tudo se cruza. Porque esta toxicidade não é isolada, é transversal. Está na política, como está na sociedade. Alimenta-se da mesma raiz: o ego desmedido, a falta de empatia, a incapacidade de reconhecer valor no outro.
Vivemos, por isso, muitas vezes numa sociedade de pedra. Uma sociedade onde o outro deixou de ser visto como pessoa e passou a ser tratado como obstáculo, concorrente ou irrelevante. Onde a sensibilidade é confundida com fraqueza e a empatia com ingenuidade.
Mas a pedra não sente. E talvez seja esse o maior perigo: tornarmo-nos todos um pouco mais duros, mais frios, mais indiferentes, como forma de sobrevivência.
Mas não tem de ser assim.
Talvez o verdadeiro ato de coragem, hoje, seja outro: continuar a sentir. Continuar a respeitar. Continuar a acreditar que é possível discordar sem destruir, afirmar sem humilhar, viver sem querer esmagar o outro.
Porque, no fim, as pessoas tóxicas não se medem pelo barulho que fazem, mas pelo vazio que deixam.
E uma sociedade que aceita isso como normal corre o risco de perder aquilo que a torna verdadeiramente humana.
Talvez a mudança comece em cada um: na forma como se escolhe viver, falar e tratar quem se cruza no caminho. Não é possível controlar os outros, mas é possível recusar alimentar a dureza, a indiferença e a agressividade que tantas vezes dominam o quotidiano. Fazer diferente, hoje, é um acto de consciência e de coragem , é escolher não ser mais uma pedra, mas parte da construção de uma sociedade mais humana, mais próxima e mais verdadeira.