A intenção que preside ao desenho do sistema Volta S+ é, inegavelmente, meritória. Numa altura em que a sustentabilidade ambiental deixou de ser uma bandeira ideológica para passar a ser uma urgência civilizacional, qualquer medida que vise mitigar o impacto ecológico merece a nossa melhor atenção. Contudo, entre a excelente essência de uma ideia e a eficácia da sua aplicação prática vai uma distância pedagógica e financeira que não podemos, em consciência, ignorar.
O Volta S+ peca por uma generalidade excessiva e arrisca-se a ser uma cortina de fumo para o verdadeiro problema que enfrentamos.
O primeiro grande revés desta medida reflete-se na sustentabilidade financeira a nível local. Ao ser aplicado de forma cega, o sistema está a contribuir para um crescimento exponencial e insustentável da despesa dos municípios. São as autarquias — a linha da frente do contacto com o cidadão — que acabam por absorver os custos de uma logística pesada e centralizada, subtraindo recursos financeiros que deveriam ser canalizados para outras prioridades locais.
Mais grave do que o asfixiar das contas municipais é o facto de este modelo afastar a discussão estrutural que se exige sobre a temática ambiental. Estamos, coletivamente, a olhar para a árvore quando o bom senso e a urgência nos obrigam a olhar para a floresta. Os problemas de hoje, e seguramente os do futuro, assentam na raiz profunda da gestão e da redução de resíduos na sua origem. Ou trabalhamos todos em conjunto — cidadãos, indústrias, comércio e decisores políticos — na resolução desta questão fundamental, ou continuaremos a entreter-nos com o “Volta” para trás e para a frente, numa dança burocrática que gasta energia e tempo precioso sem resolver o essencial.
Além disso, não podemos fechar os olhos à dimensão humana do problema. Este sistema falha gravemente no critério da justiça e não respeita a coesão social e territorial. Ao impor regras homogéneas a realidades socioeconómicas e demográficas profundamente distintas, penaliza as populações mais vulneráveis e as regiões periféricas. O Volta S+ reúne à sua volta um conjunto de predicados e complexidades operacionais que, em vez de facilitarem a transição verde, acabam por prejudicar e sobrecarregar o quotidiano do ser humano.
A verdadeira ecologia faz-se com as pessoas e não contra elas. Não precisamos de medidas de cosmética que sirvam apenas para preencher relatórios de conformidade. Precisamos de um pacto coletivo, integrado e justo, focado na verdadeira redução de resíduos e na valorização dos territórios. Está na hora de parar, refletir e redefinir o rumo, antes que o desperdício deste sistema seja maior do que o resíduo que ele tenta combater.