“O diário? Trata-se de um exercício exigente, nada avulso. Precaver-nos continuamente contra a repetição, a rotina, o banal associado à ideia de quotidiano. O meu perde-se na origem da própria fugacidade, mais até do que na fuga para diante — contra o queixume, o lirismo sentimental, o deserto das ideias. Fosse eu filósofo, teria matéria de sobra para outra linguagem. Não o sendo, limito-me a escavar a terra das palavras e das ideias (com as mãos), na busca de uma razão para o que me afronta e me rodeia, perto e longe. É entre as ideias de proximidade e distância que procuro a luz da escrita do meu diário.” O registo é de 20 de Junho de 2024 e consta na obra diarística “Novas Fases da Lua” (Dom Quixote, 2025), de João de Melo (n. 1949), nome habitualmente associado ao romance e ao conto.
Abrangendo os anos de 2017 a 2024, embora nenhum registo conste de 2020 e de 2022, o título é explicado em nota prévia: a escrita de diário, iniciou-a o autor em 1993, embora sujeita a interrupções, estando o período entre esse ano e 2007 em volume ainda inédito sob o título de “Fases da Lua”. O propósito desta publicação foi o de assinalar o cinquentenário sobre o aparecimento do primeiro livro do autor, “Histórias da Resistência”, em 1975 (Prelo Editora).
Pretende-se então com este diário o trabalho da escrita em torno do que rodeia e constitui a vida, deixando marcas, fazendo pensar o mundo, num trabalho de descoberta, de definição e de tomada de posição.
Ao longo destes seis anos de recolha de momentos de reflexão sobre os dias, o tema da escrita como universo pessoal vai surgindo, ora em jeito de balanço ou de reparação, ora com a preocupação do sentido que a escrita dá à vida (motivação de alguns textos; hipóteses de temas e circunstâncias para outras obras; descoberta da escrita infanto-juvenil; sensação resultante das leituras, comentários ou adaptações da própria obra a partir dos outros; momentos de hesitação e eventuais soluções para narrativas iniciadas; angústia perante o ter podido “ir mais além e mais acima” na própria escrita). A leitura, forma de completar um livro, está também presente em muitas páginas, seja pelas notas de leitura de algumas obras específicas (títulos de João Pinto Coelho, Tolstoi, Mário Cláudio, Dimas Simas Lopes, Sérgio Mendes, Fernando Aramburu, Rui Couceiro, Gonçalo M. Tavares ou J. H. Santos Barros, por exemplo), seja por referências a autores, estas resultantes de coincidências na vida ou de cruzamentos com a análise e reflexão sobre os dias (com entradas para nomes como Vitorino Nemésio, José Correia Tavares, Raul Brandão, Urbano Tavares Rodrigues, Tolentino Mendonça, Chico Buarque, Aquilino Ribeiro, Agustina Bessa-Luís, Fernando Namora, José Saramago, Antero de Quental, Cristóvão de Aguiar, Mário de Carvalho ou Nuno Júdice, entre outros).
A presença de tão diversos nomes e obras acaba por ser também o reconhecimento do caminho e do poder da literatura, assumidamente expresso em registo de 25 de Setembro de 2018: “A literatura perderá sempre os seus confrontos com a tecnologia: mas não a sua razão de ser no interior das sociedades, tenham elas o modelo que tiverem. O mundo passa todo pela sua escrita, apontada ao futuro e ao triunfo da luz sobre as trevas do nosso tempo. Enquanto houver linguagem e criação, a literatura será a razão de ser, o degrau, o corrimão que a todos levanta do chão e os leva a subir para o alto.”