Um dos aspectos que aprecio no Verão, é o facto de me permtir uma outra descontracção e disponibilidade para esse exercício fascinante que é a leitura.
Daí que, nas minhas deambulações pelas livrarias, encontrei um livro que já tinha ouvido falar:“O Homem Que Gostava de Cães”.
Leonardo Padura é uma figura incontornável da literatura mundial e cubana. Nascido em Havana em 1955, licenciou-se em Filologia, tendo trabalhado durante 15 anos no jornalismo de investigação, antes de se dedicar exclusivamente à Literatura
Padura ganhou fama mundial através da sua série policial protagonizada pelo detective Mario Conde, através do seu olhar atento, efectua uma radiografia da realidade social e política cubana, contradições e dificuldades.
Ao contrário de muitos intelectuais que abandonaram a ilha, Leonardo Padura continua a viver e a trabalhar em Havana.
Manifesta explicitamente a sua oposição ao regime comunista que vigora em Cuba desde 1959, o que, para grande surpresa minha, conhecendo o modus operandi dos comunistas, não lhe tem trazido consequências, nomeadamente para a sua segurança e integridade física.
Por muito menos, a polícia política cubana, a temível G2, envia os opositores para a prisão.
A sua independência intelectual e a crítica social implícita nas suas obras, que expõem a censura, a burocracia, a pobreza e a desilusão, tornam-no numa figura muito desconfortável para o regime cubano.
Embora Padura se declare de esquerda e afirme que o seu desejo é ajudar a melhorar o país através da reflexão, as autoridades olham-no com manifesta desconfiança.
Penso que um dos principais motivos pelo qual Padura tem o estatuto de intocável, deve-se ao seu reconhecimento literário global que funciona como uma espécie de “escudo” que o protege de eventuais represálias do regime, enquanto continua a apelar ao respeito por quem pensa de forma diferente.
Contudo, em Cuba os seus livros têm tiragens muito pequenas, no circuito estatal principal.
Como a tiragem oficial não satisfaz a procura, os cubanos lêem Padura através de cópias piratas (em formato digital ou impresso) ou obtêm exemplares trazidos do estrangeiro.
Eis-nos chegados a uma das suas obras-primas, o livro intitulado “O Homem que Gostava de Cães”; Leonardo Padura coloca o dedo numa das maiores feridas do regime, o assassínio de Leon Trotsky, expondo o comunismo, numa das suas formas extremas, o estalinismo.
No “O Homem que Gostava de Cães”, Leonardo Padura descreve com um enorme talento literário, a forma como Trotsky vai transitando no seu exílio, de país em país, como um pária, olhado de soslaio por todos, desde o Cazaquistão, passando pela Turquia, França, Noruega até chegar ao seu destino final, o México.
Paralelamente, Padura descreve-nos magistralmente a forma como Ramon Mercader, o assassino de Trotsky, foi reeducado num campo de trabalho soviético.
O comunismo optimiza esse processo de desconstrução, imposto pela necessidade de se criar um homem novo e daí para uma sociedade considerada perfeita.
Nesse contexto, assistimos à reeducação de Mercader, à sua reprogramação ideológica, perdendo a sua identidade, para executar com eficácia e precisão a operação que o camarada Estaline tinha decidido atribuir-lhe.
Os fins, mesmo os mais criminosos, justificam sempre os meios.
Leonardo Padura entrelaça e vai progressivamente adensando a narrativa de uma forma notável; vamos assistindo à transfiguração de Mercader, à viagem para o México, à aproximação ao círculo íntimo de Trotsky, até ao desenlace fatal, o seu assassínio, em 1940, utilizando, para o efeito, uma picareta de gelo desferida de forma certeira na cabeça.
Ramon Mercader passaria 20 anos numa prisão mexicana, sem nunca revelar os mandantes, embora todos soubessem de onde veio a ordem.
Libertado em 1960, Mercader viajou para a União Soviética, onde foi condecorado secretamente com o título de “Herói da União Soviética”, tendo-lhe sido atribuída a Ordem de Lenine.
Mais tarde, regressou a Cuba, e já dentro do universo paduriano, passeia os seus cães na praia, e onde, passados muitos anos, questiona as motivações que o levaram a cometer o seu crime.
Leonardo Padura desnuda, sem quaisquer constrangimentos, o comunismo, que, tal com o fascismo, constituem as duas ideologias mais mortíferas e sanguinárias do século XX.
“O Homem que Gostava de Cães” de Leonardo Padura é um livro que aconselho vivamente.