Celebrar o 25 de Abril é uma oportunidade de balanço

Celebrar o 25 de Abril é uma oportunidade de balanço

Celebrar o 25 de Abril é uma oportunidade de balanço

27 Abril 2026, Segunda-feira
Presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado

Assisti à apresentação da peça de teatro com o título “Peixe Pó Gato”. Bem encenada e com a particularidade de o palco ter sido a rua. Mas a maior peculiaridade foi toda a narrativa ter sido construída com base em investigações históricas e testemunhos vividos, ao tempo, por pessoas, bem retratadas na mestria representativa dos atores. A fome, em Setúbal, foi o mote principal, sobretudo a dos anos anteriores à Revolução do 25 de Abril, mas também a que se verificou nos últimos anos da década de oitenta do século passado. Foi realçada a dureza do trabalho das mulheres empregadas nas fábricas da conserva de peixe e a de muitos dos seus maridos que eram pescadores. Nunca passei fome, nem nunca foi preciso que a minha mãe fosse ao mercado pedir “peixe para o gato”, com vergonha de dizer que era para a nossa subsistência, pois o meu pai trazia algum do pescado sobrante para a nossa alimentação. Mas recordo com saudade, não desse tempo, mas do sabor das ovas de sardinha ainda não tratadas, que, envergonhadamente, a minha mãe trazia.  Vivi, com muita emoção, tudo o que ia sendo dramatizado. Mas as carências eram muitas outras, como por exemplo: nos domínios da habitação, do trabalho duro e mal pago, na prevalência de doenças resultantes da má qualidade de vida, na difícil progressão nos estudos, na excessiva emigração para procurar melhores condições de vida, na prisão e tortura dos que pensavam diferente do Governo de então, nas guerras que ceifaram vidas de muitos jovens…

O 25 de Abril veio rasgar esta escuridão de situações indignas e iluminá-las com a liberdade e a construção de um Estado democrático como garantia de um tempo prenhe de esperanças. Passaram-se 51 anos e muitas delas parecem estar a esboroar-se na mente e no espírito de muita gente. Criou-se um Estado Social, mas há muita gente a viver em condições deploráveis. Eliminaram-se quase todas as barracas, mas o acesso menos oneroso a uma habitação condigna é um grave problema. Em boa hora, nasceu o Serviço Nacional de Saúde, mas muitos dos seus bons propósitos estão por cumprir. Universalizou-se o ensino, mas o insucesso escolar é significativo. O trabalho tornou-se menos penoso e os salários cresceram, mas há mais precariedade e temos trabalhadores que continuam pobres; a justiça continua inacessível aos que vivem com parcos recursos financeiros …

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Há valores humanos e éticos que estão a ficar esquecidos. Parece que a norma é “cada um salve-se como puder”, esquecendo que o bem-estar de cada pessoa está relacionado com o bem-estar da sociedade, como um todo. A verdade, a honestidade, o decoro, o respeito pelos outros e pelo seu bom nome, a defesa da vida em todas as suas etapas, a dimensão espiritual da existência, o diálogo sério, a moderação nas palavras deixaram de fazer parte do léxico de muitos. No meio destas limitações e contradições aparecem “profetas” que prometem o que sabem não poderem cumprir, mas falam do que preocupa o povo. Todas as principais ditaduras nasceram com “messianismos”. Porém sem liberdade, a pessoa pode tornar-se num robô e a liberdade é um valor sublime que Abril conquistou. A democracia, apesar de não ser ainda um modelo perfeito de organização política, é o que permite termos – se quisermos – voz e vez nas decisões que nos dizem respeito. Todavia, escasseiam, cada vez mais, os espaços de participação alicerçados em francos e construtivos diálogos, e na aceitação de opiniões diferentes.

Mesmo assim, a Revolução de Abril tem de ser celebrada. Que a festa seja um reforço de energias para que não se deixe morrer a democracia, porque ela precisa de ser, constantemente, revitalizada. Essa é uma competência de todos. Quem se abstém desta missão inalienável, compromete o seu bem-estar e a construção de um futuro melhor.

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