A previsível e infeliz queda e corte de dois pinheiros centenários, no bairro de Vanicelos (parte II)

A previsível e infeliz queda e corte de dois pinheiros centenários, no bairro de Vanicelos (parte II)

A previsível e infeliz queda e corte de dois pinheiros centenários, no bairro de Vanicelos (parte II)

, Professor
13 Setembro 2026, Domingo
Professor

“(…)As câmaras têm a obrigação legal e moral de proteger o património natural sob sua jurisdição. A manutenção dos parques deve ser feita com o contributo de funcionários peritos em biologia e silvicultura. Nenhum abate de árvores centenárias e monumentais deverá ser feito, sem estudo prévio por gente competente. O contrário será um inaceitável e condenável ato de barbárie.”

Viriato Soromenho-Marques, amigo, vizinho, igualmente indignado

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No dia 31 de Agosto, como se previa e temia, um dos dois belos e enormes pinheiros mansos centenários (Pinus pinae), localizado no bosquete do bairro de Vanicelos tombou, danificando viaturas que se encontravam estacionadas perto.

Fomos alertando a Câmara Municipal de Setúbal, para a inclinação cada vez mais acentuada que o pinheiro evidenciava, ao longo dos sucessivos anos, que nos informavam que estas árvores centenárias estavam sob a alçada do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) e não da autarquia. 

Ou seja: não se fez nada, como seria de prever.                                                       

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Junto às árvores em questão, existiam duas placas metálicas identificativas das suas características, onde estava escrito “árvore classificada de interesse público”. 

Não me parece que tenha havido qualquer tipo de interesse.

A resolução do problema não era complicada.

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Deviam ter-se cortado os ramos mais pesados que estavam precisamente virados para Sul, a fim de proporcionar à árvore readquirir algum do equilíbrio inicial, ou pelo menos, procurar libertá-la desse peso adicional, com estruturas metálicas de amparo, que prolongam a vida natural da planta, sem colocar em perigo a vida humana, tais como existem no sobreiro assobiador de Águas de Moura.

Como nada disso foi feito, a árvore acabou por tombar.

Bastou um Inverno mais rigoroso como o último, para que tal acontecesse.

Após toda aquela confusão tumultuosa de bombeiros, polícias, protecção civil, vereadores, técnicos camarários, curiosos, motosserras, gruas, camionetas de carga e carros destruídos, ao fim da tarde, fui à base do tronco que estava caído e com ajuda de um marcador, assinalei os anéis de crescimento da árvore centenária tombada; contei cerca 150.

150 anos. Provavelmente terão ambas germinado em 1876.

No dia seguinte, depois da árvore caída, continuou o frenesim da motosserra. Nesse mesmo bosquete, encontrava-se outro pinheiro centenário, que tinha pouca inclinação.

Nada que não pudesse ser resolvido.  

Sem que nada o fizesse prever, a árvore centenária foi derrubada.

Permitam-me aqui efectuar um “libelo acusatório”; é uma vergonha, uma indignidade e um ultraje, que se tenha chegado a este ponto, numa época em que se valorizam o Ambiente, as florestas, os bosques, os parques naturais e urbanos, etc.

A primeira visada é a Câmara Municipal de Setúbal, pela inércia evidenciada com a primeira árvore, pela falta de cuidado com muito do nosso património natural, e pela rapidez com que abateu a segunda árvore.

Muitas vezes tem de haver coragem, dar um murro na mesa e fazer o que está certo, alicerçados pela força da razão que nos assiste.

O segundo visado é o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, pelo recorrente silêncio, desinteresse e incúria que manifestaram, uma vez que já teriam sido alertados pela CMS, não tendo havido, ao que tudo indica, qualquer resposta.

Quando a entidade que gere o nosso património natural, age desta forma, estamos basicamente conversados.

Nunca se abatem, nem se deixam morrer leviana e criminosamente árvores centenárias, sem que sejam tomadas iniciativas preventivas.

Como se previa, passadas duas semanas o terreno continua na mesma, revolto, com raízes à vista sem terem sido retiradas e com o muro danificado, dando a sensação de desleixo, que se lamenta.

Há décadas que conheço muito bem estas, e outras árvores, uma vez que fazem parte das minhas caminhadas e do meu roteiro afectivo.

Uma sociedade que não respeita o seu património natural, não se respeita a si própria.

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