Festa de Nossa Senhora do Rosário de Tróia: perceções sobre a importância da salvaguarda de uma tradição da comunidade marítima de Setúbal

Festa de Nossa Senhora do Rosário de Tróia: perceções sobre a importância da salvaguarda de uma tradição da comunidade marítima de Setúbal

Festa de Nossa Senhora do Rosário de Tróia: perceções sobre a importância da salvaguarda de uma tradição da comunidade marítima de Setúbal

8 Setembro 2026, Terça-feira
Nuno Soares

A Festa de Nossa Senhora do Rosário de Tróia é um marco na vida social, cultural e religiosa de Setúbal e pertence ao culto mariano. Significa o descanso da faina dos pescadores de Setúbal e das pessoas ligadas ao mar. Integra, o Apostolado do Mar, em particular o Apostolado do Mar – Paróquia de São Sebastião.


Tem-se assistido a uma abertura a outras comunidades de pescadores, Bairro de Troino, Bairro da Conceição, Fonte Nova, Praias do Sado, Bairro da Anunciada, Faralhão, Carrasqueira e Comporta, relaciona-se também com a afirmação de continuidade num futuro próximo, como a reunião de devotos e a democratização cultural. É sem dúvida uma festa que resulta de uma herança cultural, transmitida de geração em geração.

- PUB -


Na perspetiva do Professor Doutor Carlos Laranjo Medeiros, no Colóquio “O culto de Nossa Senhora da Nazaré: Perspetiva multidisciplinar”, quando disse “todos somos chamados a assumir a capacidade de garantirmos que tudo quanto recebemos de Património Material, Natural ou Imaterial bem como da própria criação contemporânea” seja salvaguardado, compreendemos desta forma que o educador social deve analisar o meio social envolvente bem como a expressão da responsabilidade da sociedade.


Estamos perante uma comunidade piscatória, onde os pescadores agradecem na Festa de Nossa Senhora do Rosário de Tróia, a sua interceção e proteção, em momentos de doença bem como pedir uma boa pescaria.
Nossa Senhora do Rosário de Tróia é venerada pela comunidade piscatória setubalense, tendo sido escolhida pelos varinos de Setúbal como sua protetora desde sempre, porém, não é a única santa celebrada em Setúbal.
Ao longo dos anos, a tradição foi-se instalando na contemporaneidade, foi-se transformando e adaptando aos novos tempos, perdurando até aos dias de hoje. Foi introduzida a celebração da Procissão das Velas em vez do Terço, despareceu a regata dos saveiros e o jogo do pau ensebado, perdurando as outras atividades de cariz popular, cultural e religioso. Deste modo, atrai cada vez mais pessoas à Festa, existindo atualmente limite para o acampamento que obriga a uma acreditação para os três da Festa, atualmente não se ficando apenas pelos pescadores, que assimilam a festa como uma identidade setubalense – sendo estas pessoas construtoras desta identidade.


A responsabilidade da Comissão de Festas foi crescente, um papel importante na preparação do terreiro e da Caldeira para receber a Festa, recai sobre a comissão todos os aspetos burocráticos e logísticos, não existindo nos últimos anos alteração significativa na sua composição.

- PUB -


A festa consistiu numa iniciativa dos Varinos de São Sebastião, atualmente passou a ter um envolvimento de toda a comunidade piscatória setubalense e da população setubalense.


A abordagem ao tema “salvaguarda e valorização do Património Cultural Imaterial” acompanha-me ao longo destes últimos dois anos da realização deste estudo, o PCI tem ganho uma maior adesão visível pelos movimentos protagonistas das candidaturas e comunidades locais (Kan San Jon, Caretos de Podence, Festa em Honra de Nª Sr.ª da Penha de França, Arte Xávega na Costa da Caparica, Bonecos de Estremoz) o reconhecimento das populações, quer mesmo o interesse das entidades e a envolvência da academia, no domínio da identidade, espírito de pertença, crenças e tradições, valores que reforçam a coesão social, o respeito pela memória coletiva.
No que concerne às medidas de salvaguarda da Festa como Património Cultural Imaterial, foi desencadeado em 2017 um processo de apoio na recolha de testemunhos sobre a Festa pela Escola Superior de Educação de Setúbal, indo ao encontro de apelo da Câmara Municipal de Setúbal, especialmente no tratamento audiovisual dos depoimentos de todos que se disponham a partilhar as suas memórias e vivências, dar-lhe uma perspetiva universitária para dignificar.


De acordo com Guilherme Martins (2020, p. 58) é importante “Reconhecer o interesse público inerente aos elementos do património cultural em função da sua importância para a sociedade”; “valorizar o património cultural através da sua identificação, estudo, interpretação, proteção, conservação e apresentação” e “formular estratégias integradas destinadas a facilitar o cumprimento do disposto na Convenção de Faro”.
Foi percetível perceber pelos periódicos consultados durante o estudo que está em desenvolvimento desde 2010 processo de inscrição da Festa de Nossa Senhora do Rosário de Tróia, no inventário nacional as suas práticas e manifestações a Património Cultural Imaterial, promovido pela Câmara Municipal de Setúbal e a Comissão de Festas.
Tem que existir a preocupação da salvaguarda dos registos, da identidade, memória e a autenticidade divulgada através da herança cultural das comunidades.
Carvalho (2014, p. 20) cita Galinha (2013, p. 14) “o PCI considera os seguintes domínios: tradições e expressões orais (a língua enquanto vetor do PCI); artes do espetáculo; práticas sociais, rituais e eventos festivos; conhecimentos e práticas relacionadas com a natureza; aptidões relativas ao artesanato tradicional”.

- PUB -


A Festa exige a intervenção comunitária pelas quais não havia a festa, com o objetivo de preservar as práticas e manifestações, elevar a autoestima, envolver os mais novos para começar a se juntar, possibilitando às gerações mais novas, promover a origem e a importância para a coesão social deste território, incutindo o sentimento de pertença, o traço da nossa identidade, angustia muito assistir a este afastamento da juventude.


A Festa ganha uma “aura”, misturando práticas religiosas e práticas profanas, a tradição instalou-se na contemporaneidade, transformando-se e adaptando-se aos novos tempos, devido às novas práticas sociais e de sociabilização, encontraram sempre forma para se manter até ao presente, valorizar as pessoas e a sua cultura, tradição que valoriza o povo e a cultura local.


Os pescadores escolhiam para as suas embarcações, em primeiro os nomes dos seus familiares, as filhas e mulher, em segundo recaía nos santos ou santas, por último optavam por nomes ligados às suas preocupações quer seja na intervenção social ou política, em muitos casos mesmo profano. Pintavam os barcos com cores vivas e desenhos maioria relacionados com o mar.


Algumas ideias conclusivas, tendo em conta os objetivos do estudo, nomeadamente: Festa tem singularidades únicas, o Círio Fluvial, o concurso barcos engalanados, os divertimentos e jogos no areal, a Procissão pela praia, o acampamento, a animação e convívio; como seus detentores os pescadores de Setúbal; a preocupação da salvaguarda da Festa no futuro; , a inexistência de pessoas para a organizar; a escassez de barcos de pesca com dimensões para carregar o atual andor de Nossa Senhora; o desinteresse dos mais novos pela Festa; importa salientar que são necessárias novas estratégias comunicativas da festa; a afirmação do modelo câmara – igreja – academia – comunidade; a candidatura de práticas e expressão PCI, expande a Festa; a perspetiva de ensino, com a implementação do Kit de recolha do Património Imaterial; a dinamização de um museu e biblioteca virtual; a realização de um seminário ou colóquio multidisciplinar de formar a abordar as práticas e manifestações; a criação do Centro de Interpretação ou Centro de Conhecimento “Culto Mariano – Festa em Honra de Nossa Senhora do Rosário de Tróia”.

Partilhe esta notícia
- PUB -

Notícias Relacionadas

, Ex-bancário, Corroios
08/09/2026
, Presidente da Junta da União de Freguesias de Montijo e Afonsoeiro
04/09/2026
- PUB -
- PUB -

Apoie O SETUBALENSE e o Jornalismo rumo a um futuro mais sustentado

Assine o jornal ou compre conteúdos avulsos. Oferecemos os seus primeiros 3 euros para gastar!

Quer receber aviso de novas notícias? Sim Não