Eu ainda sou do tempo em que me deixava subornar e comia a sopa toda a troco de cinco tostões.
Depois, como todas as outras crianças, passei pelo teste das moedas e preferia três ou quatro em vez de uma só de maior valia.
Ainda em pequena, encontrei-me com um tesouro a brotar por entre as pedras de uma calçada conhecida. As moedas brilhavam, prateadas, e era só apanhá-las. O tesouro parecia perpétuo, infindo.
Eis que acordei e, afinal, era apenas um sonho.
No entanto, não me contive: voltei ao mesmo lugar, e finalmente, percebi que o tesouro não existia. Enfim, vejam lá bem o secretismo da ingenuidade das crianças!
Curiosamente, talvez por ser tão distraída, raras foram as vezes que achei alguma coisa. E eu, que achava tão divertido achar!
E passaram-se os anos, e a dada altura, estava acompanhada por um amigo próximo. Enquanto caminhávamos, encontrei na calçada uma moeda exatamente de um euro.
Por sinal, bem-intencionada, disse-lhe:
Ofereço-te esta moeda para te dar sorte.
Mas logo, por fatalidade, morreu-lhe o pai, subitamente.
É certo que a desgraça trouxe sofrimento e desgosto. Passei a acompanhá-lo frequentemente, num gesto de reconforto, e trocávamos conversas, muitas conversas. Mas, quanto à moeda, nunca mais falámos.
Só que, numa das nossas saídas, quando passeávamos precisamente pela mesma calçada, eis que, para minha feliz surpresa avisto uma nota. E logo uma nota de cinquenta euros!
Foi então que corri para ela, agarrei-a, amassei-a com uma mão, e com a outra, fiz uma figa.
E não me contive:
Esta, morra quem morrer, é minha!