Montijo: classes residenciais, desigualdade territorial e invisibilidade social

Montijo: classes residenciais, desigualdade territorial e invisibilidade social

Montijo: classes residenciais, desigualdade territorial e invisibilidade social

6 Novembro 2026, Sexta-feira
Docente e investigador aposentado, residente em Montijo

O crescimento da população residente no concelho do Montijo, entre os Censos de 2011 e 2021, traduz uma profunda transformação territorial e social. Dados mais recentes (Pordata, para 2025) reforçam a tendência extraordinária de crescimento populacional, no sentido de apontar para uma população residente em Montijo já superior a 68 mil habitantes, contra os cerca de 57 mil em 2021.


A expansão urbana consequente que se verifica, porém, não é socialmente neutra, nem se limita à construção de novas habitações: exprime opções económicas, relações de propriedade e diferentes modos de habitar e de viver em sociedade. O parque edificado continua dominado por edifícios de um ou dois pisos. Em 2021, cerca de 82% dos edifícios do concelho integravam esta categoria, embora se observasse um ligeiro aumento do peso dos edifícios com três ou mais pisos relativamente a 2011. Também o número médio de alojamentos por edifício aumentou (maior concentração habitacional). Estes indicadores sugerem uma recomposição gradual do tecido habitacional, sem que desapareça a desigualdade territorial entre a moradia individual e o crescimento da verticalização da construção urbana.

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A expansão da habitação unifamiliar coloca, entretanto, uma questão política frequentemente esquecida: quem suporta os custos coletivos da urbanização? A construção privada pode ocupar progressivamente o território, mas as redes de drenagem de águas residuais e o abastecimento de água exigem investimento público (que os privados sabem reclamar, pressionando as autoridades com questões de saúde pública, sem colocar em causa a tipologia da expansão urbana). A maior liberdade de construir não pode significar o direito ilimitado de transferir para a restante população as consequências das escolhas individuais.


A tipologia habitacional tem igualmente implicações sociológicas. A vida em moradia tende a favorecer uma relação individualizada, proprietarista e capitalista com o território apropriado; a habitação coletiva e a verticalização da construção introduz a partilha de áreas comuns, a gestão condominial, e um outro carácter vicinal nas relações sociais.


É neste sentido que podemos falar em CLASSES RESIDENCIAIS: categorias que, embora se cruzem com as classes sociais tradicionais, permitem compreender desigualdades específicas associadas à tipologia habitacional e à propriedade do solo. A habitação não é apenas um bem económico; é também um recurso de poder.

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O crescimento dos trabalhadores por conta de outrem, na população recém-chegada (muito superior ao crescimento populacional), e a percentagem da população residente estrangeira (maior nas Freguesias rurais) revelam outras dimensões da transformação do Montijo. Persiste, ainda, uma realidade particularmente inquietante: a exploração de trabalhadores imigrantes em atividades como a agricultura e a apanha de amêijoa, incluindo situações denunciadas ou investigadas por suspeitas de tráfico de seres humanos e exploração laboral. A prevalência de uma população vulnerável, socialmente sem poder de influência política, sujeita a condições próximas da servidão exige escrutínio público, investigação e proteção das vítimas. O silêncio político não pode significar que o problema não existe.


Por fim, a insegurança, real ou percecionada, não deve ser abandonada à exploração populista. Deixar esse espaço às forças de extrema-direita significa correr o risco de transformar problemas sociais em instrumentos de medo, repressão e exclusão.


O futuro do Montijo não depende apenas de quantas pessoas chegam ou de quantas casas se constroem. Depende de quem beneficia da expansão, de quem paga os seus custos e de quem permanece invisível para as autoridades políticas, vulnerável face a redes mafiosas de tráfico humano. O Montijo merece melhor futuro.

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