É com uma lamentável regularidade que assistimos ao coro dos cínicos erguer-se sempre que nasce uma nova estrutura de cooperação territorial. Não tenho dúvidas da capacidade humana de alguns para, de forma leviana, rotularem a Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal como mais um mero fornecedor de lugares ou palco de intrigas políticas. Infelizmente, começamos a estar habituados a estes devaneios desresponsabilizados que tentam nivelar tudo por baixo, como se fôssemos todos iguais.
Mas não o somos.
Há quem trabalhe com o foco exclusivo no bem comum e na elevação das condições de vida das nossas populações.
A criação desta comunidade intermunicipal não é um capricho burocrático; é uma conquista histórica, transversal a vários quadrantes políticos, que uniu vontades em torno de uma identidade e de uma necessidade comuns. Peca, na verdade, por ter chegado tarde.
Durante décadas, a Península de Setúbal viu o seu desenvolvimento condicionado por métricas que não espelhavam a sua real assimetria socioeconómica. Agora que dispomos deste instrumento crucial de planeamento e reivindicação, importa moderar o otimismo com o pragmatismo que a realidade exige.
A nossa grande expectativa reside na estabilidade das regras do jogo europeu. Esperamos firmemente que a comunidade europeia não altere o seu funcionamento na atribuição de verbas ao abrigo dos quadros comunitários. Este território precisa, de forma urgente, de ser alvo de investimentos estruturantes que melhorem a qualidade de vida das pessoas, através de um financiamento que esteja muito acima daquilo que hoje temos disponível. Falamos de habitação, transportes, de ambiente, de coesão social e de competitividade económica.
Esta ambição legítima e urgente não é um capricho isolado de Alcochete. É uma expectativa partilhada por todos os municípios da Península de Setúbal, quer alguns detratores queiram, quer não. A força desta comunidade reside precisamente na sua escala e na capacidade de falar a uma só voz em Bruxelas e em Lisboa. Para que este projeto resulte em transformações visíveis no terreno, teremos de continuar a saber dosear a paciência, gerindo os tempos da burocracia sem nunca perder a audácia da exigência.
O futuro da nossa região constrói-se com esta união estratégica, resistindo ao ruído de quem nada constrói.