Meus caros doutores do Ministério e ilustres relatores do EduQA: li com religioso deleite as vossas trinta e três páginas de “Orientações para a utilização responsável da IA na Educação”. O grafismo é asseado, o tom exala aquele verniz moderno de quem assiste a conferências em hotéis com ar condicionado e até tem um semáforo pedagógico (acho que vi a ideia num modelo internacional), com cores garridas que fariam furor numa escola primária da Finlândia.
Importa começar pelos elogios, para que não me chamem reacionário ou homem das cavernas em vias de extinção. Têm toda a razão quando dizem que a máquina tem utilidade. É formidável como apoio de acessibilidade para miúdos com necessidades específicas, dá uma perna jeitosa a resumir calhamaços e até desenrasca o professor na hora de parir vinte variantes do mesmo exercício de matemática antes do almoço. Até aí, nada a opor. Estamos conversados e comovidos.
O sarilho começa quando os senhores decidem descer do éter regulamentar e aterram nas páginas práticas.
Com uma generosidade que quase comove, os senhores resolveram entregar a soberania do processo à “autonomia e decisão institucional” de cada agrupamento. Parece bonito. Na língua dos vivos, porém, isto tem outro nome: sacudir a água do capote com estrondo de feira. Os senhores pegaram no calhamaço do Regulamento Europeu de Inteligência Artificial, sacaram das grelhas de conformidade do RGPD, juntaram-lhe o direito de autor, e atiraram o embrulho todo para cima dos ombros dos professores e conselho diretivo.

Pelos vistos, em cada escola pública deste país existe agora, algures entre a arrecadação das bolas de basquetebol e a sala das fotocopiadoras enguiçadas, um departamento de alta segurança informática. O docente, nos três minutos que lhe sobram entre preencher sumários e separar duas crianças em vias de pugilato no recreio, é intimado a fazer uma “apreciação prévia”. Tem de verificar onde ficam os servidores da multinacional, se o modelo incorre em «risco elevado», de que forma os dados dos alunos são mastigados pelo algoritmo e se o sistema comete o pecado mortal de inferir emoções em sala de aula.
Tudo isto, repare-se na finura do número, num parque escolar onde metade dos computadores ainda suspira para abrir um ficheiro de texto, a rede sem fios cai se houver trovoada em Madrid e ninguém deu aos professores um quarto de hora de formação técnica séria ou redução de meio tempo letivo para fazerem de magistrados de Silicon Valley.
Mandar o professor vigiar os gigantes da tecnologia sem tempo, sem meios e sem tecnologia é de uma bonomia desconcertante. É o equivalente administrativo a pôr um guarda-noturno munido de apito a policiar o tráfego espacial.
Se a coisa der para o torto e um miúdo for pilhado a clonar a voz do colega ou a entregar um arrazoado com dados vazados, os senhores já têm a resposta pronta no vosso semáforo de trinta páginas: “Nós avisámos na página dezassete, a escola é que não apreciou previamente”.
Fica o trabalho feito e a consciência lavada. Eu, pelo sim, pelo não, vou beber um café à cantina enquanto o computador arranca. Consta que faltam só vinte minutos. Deve dar.