Em “Novas Fases da Lua”, o diarista João de Melo valoriza muito o rodar do mundo, assumindo a posição de cidadão atento e com opinião, dando razão ao seu preceito de registar “o que me afronta e me rodeia, perto e longe”.
As figuras e os acontecimentos marcantes dos anos abrangidos suscitam o comentário atento no diário: o Papa Francisco (“figura despojada de esplendores”, com uma “mensagem de paz dos gestos desprendidos e naturais”, conforme registo de 12.Mai.2017); Donald Trump (o homem que lida com “lume na palha, pólvora em chama acesa, gasolina em jacto sobre as labaredas”, um “incendiário a brincar com o fogo e com o mundo”, 7.Dez.2017); conflito israelo-palestiniano (“Israel não move apenas a guerra total contra os palestinianos; move a vingança à solta, a punição cega e pela morte avulsa, o chamado terrorismo de Estado”, 24.Jan.2017); o movimento “Me too” (“o chamado assédio sexual masculino dá a volta ao planeta, denunciado por mulheres que dizem ter sido vítimas da alarvidade dos homens”, acusação que provocará “que as relações encolham e em nós se instale um puritanismo duplamente falso no seu incómodo”, 22.Jan.2018); a segunda onda da covid (“um vírus, a pandemia, esta nova lepra que nos obriga a ficar em casa, manhã, tarde e noite, ou a sair por um carreirinho clandestino, de máscara e sem nos chegarmos a ninguém”, 10.Fev.2021); os efeitos das alterações climáticas (“as imagens aí estão: vogam na enxurrada, água abaixo, casas e carros e outros bens, morre gente de todas as idades, e nada move à responsabilidade os poderes do mundo”, 3.Ago.2021); a guerra entre a Rússia e a Ucrânia (“Esta passou a ser uma guerra entre blocos político-militares”, em que “deixou de haver inocentes”, enquanto “nós, pobres diabos do humanismo e da paz, somos os únicos a ouvir o choro das mulheres e das crianças e a recordar o silêncio dos mortos vivos e dos vivos mortos”, 20.Jul.2023); a Jornada Mundial da Juventude (movimento que “veio instalar em nós uma espécie de trégua, a da paz e da fé, por aqueles que peregrinaram e têm demonstrado ser possível crer numa outra ordem no nosso quotidiano”, 5.Ago.2023); os atentados em Estocolmo e em Barcelona (Abril e Agosto de 2017), a “tragédia incendiária” em Portugal (Outubro de 2017) ou os tumultos na África do Sul (Julho de 2021) ou em Maputo (Dezembro de 2024).
No registo de 8 de Janeiro de 2024, João de Melo tem necessidade de exprimir as suas preocupações num resumo rápido: “O que me inquieta e desassossega: as guerras que vão por esse mundo fora; as mortes e as vidas dos imigrantes que atravessam o mar Mediterrâneo, em fuga da miséria, para chegarem à Europa e serem depois repatriados; a perdição do planeta, anos atrás de anos, sem que lhe acudam a tempo de o salvar; o desmatamento sistemático da Amazónia; o sorriso alarve de Putin, a cara de bolacha gorda do presidente chinês e o enigma constante do seu pensamento; a hipótese cada vez mais provável de reelegerem Trump para a presidência da América; e a minha doença encoberta.”
A questão da saúde merece várias referências ao longo deste volume, a começar logo pelo primeiro registo: “Dívidas de gratidão para com o meu corpo”, que, apesar de tudo, lhe trouxe sobressalto em 2014, mas, “sem nunca o censurar nem ofender, continuarei a cuidar dele, corpo de mim mesmo”, pois “nele, corpo, mora a minha vida” e “nada há mais saudável do que estarmos vivos” (21.Jan.2017).
A literatura (como visto na crónica anterior) constitui factor de estabilidade, mas esta chega também através das referências à família (“foi e é única no meu mundo”, 28.Ago.2017), particularizada na esposa, na neta, nos filhos, ou dos amigos (“sem eles, ficamos não apenas mais tristes, mas mais sós”, 2.Nov.2019), como chega através da ligação a dois pontos geográficos como a Espanha (particularmente Madrid, onde exerceu funções — “sinto-me nesta cidade-casa como se nela tivesse nascido para me ir embora”, 28.Nov.2019) ou a Achadinha (onde nasceu e onde hoje existe a Casa João de Melo, que foi casa de família e agora é espaço museológico sobre o escritor e sobre a região do Nordeste — “Não é pacífico em mim ser patrono de uma casa pública e ver o meu nome na sua frontaria. Sinto-me entre o júbilo íntimo e os seus contrários, ainda mais fundos.”, 23.Ago.2021).
Por este diário de João de Melo passam textos normalmente curtos, a chamarem a atenção para o essencial sentido naquele dia perante o andar do mundo, às vezes inserindo pequenas histórias do quotidiano (nem sempre sendo indicados os nomes dos protagonistas), salvando a forma própria de pensar e contestando o papel dos comentadores — “gente que tudo sabe” e “uma fórmula existencial de intrusão” (16.Fev.2017) —, comprometidos ideologicamente.
João de Melo sabe que a escrita é uma forma de exposição, tal como refere ao encerrar este diário, em 31 de Dezembro de 2024 — “Vivo e escrevo e sou aqui e agora. Sempre em mim.” —, não prometendo a sua continuação, mas admitindo-a, ao mesmo tempo que garante ser a escrita “o mais importante de tudo em mim”.