No dia em que Jorge Jesus apresentou a “sua” seleção, a rádio pública, Antena 1, fez uma emissão especial. Começou por volta do meio-dia, o noticiário dessa hora foi suprimido, e quando acabei de almoçar, a seca continuava. Com certeza que nas outras principais estações de rádio e nas televisões, não deve ter sido muito diferente.
No tempo da outra senhora, só havia jogos de futebol ao domingo. E para além das provas nacionais, havia a Taça dos Vencedores das Taças, a Taça dos Campeões Europeus, e o Campeonato do Mundo. A gora há mais. Não me vou dar ao trabalho de pesquisar ou perguntar a algum amigo entendido na matéria, quantas, mas há.
Portanto, o aproveitamento desta modalidade desportiva que é sem dúvida muito interessante como espetáculo e de se praticar. Quem é que pelo menos na infância e na juventude não jogou à bola? Às vezes até com elas feitas de trapos. Portanto, o aproveitamento dela, dizíamos, é atualmente ainda maior que no tempo da ditadura. E quem mais beneficia, são os donos das televisões pelo que recebem das transmissões e da publicidade, os gestores dos clubes, sobretudo dos maiores, e os donos disto tudo, porque a alienação das massas leva-as a votar nos seus partidos e agora também no mais demagógico e oportunista de todos. E tanta gente em palpos de aranha para conseguir uma consulta médica mesmo inadiável, desesperados com o filho que não tem professor ou mesmo escola, com a renda da casa que está pela hora da morte. Mesmo assim, para além de outras injustas carências, lá vão cantando e rindo porque têm futebol quase todos os dias na rádio e na televisão.
Esta novela do Cristiano Ronaldo versus Jorge Jesus, que já fez correr rios de tinta e centenas de horas de emissão nas rádios e televisões e que não se vislumbra o seu fim, é o exemplo mais paradigmático do que acabamos de dizer.
É verdade que o CR7, não foi um jogador qualquer! Foi um dos melhores do mundo. Quiçá, o melhor. O menino pobre que veio da Madeira e por ser dotado de condições extraordinárias para a prática da modalidade, mas também pela sua aplicação e dedicação, fez a carreira que todos sabemos e levou o nome de Portugal aos quatros cantos do mundo. Mas depois deslumbrou-se com o protagonismo, a fama e o dinheiro. Os carros, as mansões, até avião particular. Mas o tempo não perdoa e o famoso CR7, naturalmente, já não é o que era. Mas não quer aceitar as evidências e não só não acatou a decisão do selecionador, como saiu intempestivamente o que caiu muito mal, mesmo a tantos dos seus admiradores.
E tudo isto se transformou num caso nacional, porque se passa ao mais alto nível do futebol cá do burgo com repercussões, evidentemente, a nível internacional, devido ao protagonista ser quem é.
Há aquela frase feita de que o futebol não passa da coisa mais importante das coisas menos importantes, e é verdade. Deveria ser assim. E o futebol não deixava de ter a importância que tem, mas não o poder dos que dele se aproveitam para benefício próprio.