“Viver é morrer em Portugal”, era o que Mário Ventura Henriques afirmava, carregando no peito a sensibilidade de quem conhece o país e a vida. Jornalista, romancista e fundador do Festróia, Festival Internacional de Cinema de Tróia, é assim que é lembrado: como um homem que viveu intensamente a palavra, a liberdade e a cultura.
Em 1958, o jornalista estreou-se no Diário Popular e, anos depois, trabalhou no Diário de Notícias, onde foi repórter, editor e cronista. Foi coordenador da agência de notícias Europa Press. “A escrita jornalística é apressada por obrigação”, referia, consciente de que a rapidez não pode apagar o rigor. Para Henriques, mesmo sob pressão, o jornalista deve manter a clareza e a verdade nas suas palavras.
Mário Ventura não era apenas um homem de letras, era um homem de convicções. Participou nos movimentos contra o regime ditatorial de António Salazar e de Marcelo Caetano. Em 1969, candidatou-se a deputado pelo Movimento Democrático Português, defendendo a liberdade com a mesma coragem com que escrevia.
No campo literário, estreou-se em 1963 com A Noite da Vergonha. A sua escrita era marcada por clareza, objetividade e atenção ao detalhe: unia o olhar atento do repórter à profundidade de um romancista. Entre as suas obras destacam-se À Sombra das Árvores Mortas (1966) e O Despojo dos Insensatos (1968), mas foi a obra Vida e Morte dos Santiagos que, sem dúvida, lhe trouxe mais reconhecimento, conquistando o Prémio da Literatura PEN Clube Português e o Prémio Município de Lisboa. O próprio chegou a ser presidente da Associação Portuguesa de Escritores.
Em 1985, fundou o Festróia, movido por uma paixão antiga: o cinema. Quis criar um festival que desse voz a cinematografias esquecidas e que apresentasse o público português ao cinema internacional: “Mário Ventura Henriques faleceu. Foi o “pai” do Festróia, hoje Festival Internacional de Cinema de Setúbal, uma figura de grande importância para a cultura portuguesa no domínio das artes, como romancista e jornalista”, recordou Avante!. Este projeto foi uma marca cultural bastante importante para Setúbal. Após a morte de Mário Ventura Henriques em 2006, este continuou a ser homenageado com exposições em pintura, vídeos e sessões especiais de filmes em memória ao romancista. O Festróia encontra-se extinto, pois foi cancelado em 2014 por falta de financiamento, mas o seu espírito permanece vivo.
O legado de Mário Ventura Henriques vai muito além dos jornais, livros e salas de cinema que ajudou a encher de vida. Mostrou que a cultura e a arte são ferramentas de liberdade e de reflexão capazes de tocar pessoas e aproximar mundos diferentes. Mesmo com a extinção do Festróia, o seu espírito e energia continuam vivos na memória de Setúbal e na história do Cinema Português. Relembrá-lo é celebrar a coragem com que dedicou a vida a dar voz à criatividade e à diversidade cultural. É reconhecer que cada livro e cada iniciativa que apoiou continuam a inspirar e a unir gerações. O seu exemplo mostra que a arte também é um ato de resistência, e que a paixão e o empenho de uma vida podem deixar marcas que ultrapassam o tempo e as fronteiras.
Texto publicado por Beatriz Eustáquio na edição especial da revista ‘Perfil Local’ da ESE/IPS