Toy: Um homem moldado pela terra que sempre amou

Toy: Um homem moldado pela terra que sempre amou

Toy: Um homem moldado pela terra que sempre amou

A música começa, a mente anima-se, os corações acompanham os compassos que o ritmo permite e o corpo dança animado. A voz que nela mora é familiar, e o cérebro reconhece automaticamente quem canta. É conhecido por seu nome artístico: Toy, o músico sadino, dono de inúmeras canções intemporais que marcam gerações. No palco é o cantor de sucesso que anima o público e quem o ouve, fora das luzes da ribalta, é António Manuel Neves Ferrão, um homem simples que carrega no coração a sua cidade sadina, terra adorada que o viu nascer e crescer, “não troco a minha cidade por nada”, dita orgulhoso.

No primeiro andar da Rua São Sebastião, Setúbal, em 1963, nasce António Ferrão. Esteve ligado à música desde cedo. Através do pai, músico amador e alfaiate de profissão, integrou a Sociedade Musical Capricho Setubalense no grupo cénico. Fez teatro de revista durante quatro anos, onde aprendeu “a olhar de frente o público, a apresentar a voz, a conviver com pessoas muito mais velhas do que eu” e a conhecer melhor o palco que pisa. Afirma, com convicção, sentir-se feliz por ter representado esta casa por anos. Movido pela vontade de lá atuar e poder contribuir significativamente para “recuperar a própria Sociedade Musical Capricho Setubalense”, orgulha-se em ver o destino de triunfos que esta sociedade alcançou.

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Tinha 17 quando apanhou um avião com destino à Alemanha, país que o acolheu até os 25 anos, porém, o coração do setubalense chamava-o de volta, “Setúbal é casa, é o meu lar”, recorda, com um olhar feliz, das lembranças do regresso ao distrito a que pertence. Quando fala na cidade sadina, os olhos ganham brilho e, com uma paixão serena presente na voz, evoca a “minha serra da arrábida” e o “meu rio sado”. Apresenta a localidade com um orgulho inabalável: “eu acho que o Distrito de Setúbal é incomparável”, dita, engrandecido por toda a beleza que ali mora, nas vegetações que a compõem, na gastronomia que carrega consigo tradições, no cheiro da maresia presente em alguns pontos dos concelhos e os clubes do distrito.

Um admirador de futebol, o músico sadino partilha que “eu sou do Vitória de Setúbal” e defende que “devíamos ser um bocadinho mais aguerridos àquilo que é nosso” completando “a nossa identidade cultural ou desportiva começa exatamente por perceber o que é que existe à nossa volta e o que é que nos é mais próximo”.

Partilha com admiração: “A minha mãe era uma pessoa muito comunicativa”, conta entre risos, ao recordar as paragens consecutivas feitas pelo caminho enquanto a sua mãe conversava animada com quem se cruzava. “Nós demorávamos meia hora para atravessar o Largo da Misericórdia e a Praça do Bocage” [ri]. Enquanto rememora o tempo passado ao lado da mãe por Setúbal e acrescenta, “tinha uma àurea muito especial”, fala com o amor e a saudade que sente por ela. António Ferrão é a junção da honestidade do pai e a autenticidade que aprendeu através dos ensinamentos da mãe. É um homem que preza a ajuda ao próximo e o amor que cada um sente por quem nos rodeia “sei que tenho muitos defeitos, que cometo muitos erros, todos nós. Mas tenho a certeza absoluta que, no fundo, no fundo, a minha função de partilha e de espalhar o amor tem sido boa”.

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Sempre que tem tempo, passeia por Setúbal, recorda-se dos bailes em que dançou alegremente nos santos populares, visita o Mercado do Livramento que descreve como um “um marco histórico”, senta-se à mesa e brinda com os que lhe são próximos. Mantém na consciência que no fundo “somos só pessoas”, que vivem com amor, verdade, autenticidade e orgulho, por pertencer onde somos felizes.

Texto publicado por Leonor Reis na edição especial da revista ‘Perfil Local’ da ESE/IPS

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