Senta-se numa cadeira, com um olhar que viaja por cada pintura pendurada na parede da sua sala de estar. Entre as cassetes que se juntam, CDs que dificilmente se contam de uma só vez, e a estante de livros que acompanham Tito Lívio cada vez que sai de casa, moram em cada canto pequenos fragmentos culturais que o tornam no homem que é. Cada palavra é medida e cada frase carrega o peso e o encanto que se tornam inesquecíveis.
Nasceu na capital, em Campo de Ourique, no ano de 1943. Cresceu educado pelas avós de nacionalidade italiana e espanhola. Filho de um pai funcionário do antigo Ministério das cooperações sociais, “andávamos com a casa às costas por esse país”, conta, recordando-se de como chegou a Setúbal, cidade pela qual nutre uma grande admiração: “é a minha cidade adotiva de fato”. À medida que recorda aqueles anos, Tito Lívio fala devagar, como quem revisita um filme antigo que ainda sabe de cor. Enquanto o país respirava sob o aperto da censura, a região mantinha-se viva. Foi nesse ambiente que deu os primeiros passos no jornalismo e na crítica cultural. Começou por escrever pequenas notas, crónicas que enviava sem esperar resposta. Depois, veio a página Dom Quixote, no Setubalense, criada por um grupo de jovens da oposição “que se reunia nas instalações do clube de campismo e que escrevia sobre música”.
Memórias do que sofreu com a censura emergem, trazem com elas o dia em que se viu obrigado a esconder os seus livros na casa da familiar de um amigo, após receber o aviso de uma pessoa próxima: “agarra nas coisas que tenhas comprometedoras em casa, agendas, moradas, livros proibidos e vai pô-las em casa de alguma pessoa de quem a PIDE não suspeite”, para que não fosse descoberto nada proibido pela censura na rusga feita à sua casa dias depois. Tito Lívio rememora com clareza o que tempo não conseguiu apagar; foi considerado uma pessoa temida, “Durante um ano, tive a PIDE a seguir-me para tudo quanto era sítio”.
Foi nesse contexto de vigilância e repressão que nasceu o Círculo Cultural de Setúbal. Através de um conjunto de pessoas, “criámos um foco de excitação cultural”, acrescenta o artista, que se tornou sócio número um e foi o primeiro presidente, inaugurando um espaço onde cabiam tanto estudantes como artistas e onde se discutia cinema, poesia, história e política, mas quase em sussurros, com o olhar sempre por cima do ombro: “tivemos sempre uma grande resistência por parte das autoridades”, conta. É com um tom de orgulho que Tito Lívio partilha que “numa determinada altura conseguimos que fosse aprovado um primeiro concerto do Zeca Afonso”, enquanto tentavam abrir uma janela onde o regime insistia em erguer muros, uma pequena frecha trouxe a rajada de ar puro, a conquista de terem feito acontecer o único concerto autorizado do cantor.
O gosto pelo teatro começou quando tinha 6 anos, o mundo dos espetáculos naquela tenra idade fascinava-o de uma forma impressionante. Tornou-se professor de dramaturgia e história do Teatro, “um professor pode influenciar muitos alunos” fala, com um sorriso no rosto. É um professor que acompanha de perto o percurso de cada aluno, mesmo quando estes já seguiram o seu caminho na arte. E tal como no teatro se vive várias vidas, Tito Lívio fez da dele uma obra que dificilmente se desvanece com o tempo. Nas suas poesias, fica claro que aquela é a sua arma mais poderosa; é nas palavras que encontra conforto e entrega. Pede para que sejamos gentis e termina “vocês têm que ser resistentes, porque a luta não acabou e a liberdade nunca está definitivamente conquistada”.
Texto publicado por Daniela Santos e Leonor Reis na edição especial da revista ‘Perfil Local’ da ESE/IPS