41. Reforma agrária transformou profundamente o Litoral Alentejano

41. Reforma agrária transformou profundamente o Litoral Alentejano

41. Reforma agrária transformou profundamente o Litoral Alentejano

100 ANOS DO DISTRITO DE SETÚBAL, 100 ACONTECIMENTOS.
Pós-25 de Abril ficou marcado pela apropriação de terras, particularmente após o Verão Quente de 1975

Em 1975, a Reforma Agrária transformou profundamente o Litoral Alentejano sobretudo nos concelhos de Grândola e Alcácer do Sal. O pós-25 de Abril ficou marcado pela apropriação de terras, graças à aprovação em julho da Lei da Reforma Agrária, algo que só iria terminar em 1977. A mobilização popular foi o fator mais importante para esta conquista. Trabalhadores agrícolas, muitos deles desempregados sazonais, organizaram-se em sindicatos e comissões de trabalhadores. Em Grândola e Alcácer do Sal, as ocupações de propriedades aceleraram durante o chamado Processo Revolucionário em Curso (PREC), particularmente após o Verão Quente de 1975.

As herdades que não estavam a ser mexidas foram tomadas por trabalhadores rurais que defendiam a necessidade de pôr a terra a produzir e acabar com estruturas sociais herdadas do Estado Novo. As altas taxas de desemprego, deixadas pelo Antigo Regime, fizeram com que milhares de homens e mulheres conseguissem o seu sustento através das terras.

A Herdade da Azenha, localizada em Casebres, concelho de Alcácer do Sal, foi uma das primeiras a ser ocupada, e a partir desta foi fundada uma cooperativa – a Herdade da Corona, conhecida como Herdade da Quinta da Corona, localizada na freguesia de Abela, em Santiago do Cacém, foi também uma das primeiras. Daqui nasciam centenas de Unidades Coletivas de Produção (UCP), tanto nas zonas do Alentejo como do Ribatejo.

O Instituto de Reestruturação Agrária (IRA) e o Movimento das Forças Armadas foram dois organismos importantes para a ocupação das terras. “Queremos as cooperativas para bem de todos, não para andarmos a trabalhar uns aqui e outros ali, assim passava a ser quase uma espécie de capitalistas. Temos as nossas terras para trabalharmos e os lucros serem nossos, e não dos grandes latifundiários como eles faziam”, ouve-se na reportagem “E depois de Abril – A Reforma Agrária” publicada em 2014 no RTP Ensina. António Torres conta que foi obrigado a sair da herdade onde nasceu. “Quando cheguei à tarde estava o meu pátio com umas centenas de pessoas, com sindicatos, com pessoal estrangeiro – a maioria alemães – que me disseram ‘isto agora é nosso, o senhor se faz favor vá-se embora’, e eu fui-me embora que não podia fazer mais nada. Depois em novembro de 1975 deram–me oito dias para tirar a mobília e as coisas todas dentro de casa porque senão arrombavam a porta e tiravam as coisas todas que lá estavam”.

A região do vale do Sado tornou-se palco de confrontos políticos entre proprietários, trabalhadores rurais e forças partidárias que disputavam o rumo do processo revolucionário. A Reforma Agrária seria interrompida em 1977, com a Lei Barreto e as herdades seriam devolvidas. Esta travou o processo e iniciou a devolução de algumas propriedades aos antigos donos, um período que ainda hoje é recordado com fortes clivagens na região.

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