37. O colosso naval da Mitrena que nasceu como o maior da Europa

37. O colosso naval da Mitrena que nasceu como o maior da Europa

37. O colosso naval da Mitrena que nasceu como o maior da Europa

100 ANOS DO DISTRITO DE SETÚBAL, 100 ACONTECIMENTOS.
Setenave foi um marco. Mas, não resistiu a uma “tempestade perfeita”: crise mundial do petróleo; instabilidade política e social no País; e má gestão

“Viveram-se (…) momentos de intensa atividade na zona da Mitrena, por motivo de assentamento da quilha para um petroleiro encomendado pela Soponata à Setenave – Estaleiros Navais de Setúbal”. A frase integra a notícia de O SETUBALENSE de 8 de agosto de 1974 a dar conta da inauguração simbólica, ocorrida dois dias antes, do então maior estaleiro da Europa, que nos primórdios de 1990 ainda era “apresentado” na RTP como um dos maiores do mundo. E o navio era o Neiva, o primeiro ali a ser construído, porque o primeiro a ser reparado foi o petroleiro Montemuro, também da Soponata, que deu entrada na doca da Mitrena em 16 de junho de 1975.

A Setenave foi fundada em 27 de maio de 1971, tendo como principais acionistas a CUF e a Lisnave (ver texto à parte nesta edição). Pouco menos de três anos e cinco meses depois tinha lugar a cerimónia de assentamento de quilha, a qual trouxe a Setúbal os “secretários de Estado do Orçamento e da Indústria e Energia, respetivamente António da Costa Leal e José Torres Campos, estando, naturalmente, presentes José Manuel de Mello, presidente do Conselho de Administração, e Álvaro Barreto, diretor da Setenave”, conforme se pode ler no livro “Setúbal no Centro do Mundo”, edição comemorativa dos 165 anos do jornal O SETUBALENSE, coordenada por Albérico Afonso Costa.

Viviam-se, porém, tempos conturbados, quer em termos internacionais – com a crise do petróleo de 1973 a alterar pressupostos do mercado mundial, o que obrigou a Setenave a focar-se prematuramente na vertente da reparação naval – quer em termos nacionais. “O estaleiro tem a particularidade de iniciar o seu funcionamento pouco tempo depois do 25 de abril, transformando-se num dos grandes palcos de conflitos políticos e sociais – é um dos melhores exemplos da participação dos operários no que ficou conhecido como ‘greves contra a corrente’ e que duraram entre maio e setembro de 1974”, é descrito na mesma publicação.

Um ano depois, em 1 de setembro de 1975, em pleno “Verão Quente do Processo Revolucionário em Curso (PREC)”, a empresa foi nacionalizada, ou seja, passou a empresa pública. Privatização e extinção Na década de 1980 a conjuntura agravou-se com a empresa a ter de enfrentar não só várias crises financeiras – e a consequente tensão social, provocada por salários em atraso e corte de regalias aos operários – como também a concorrência dos estaleiros asiáticos na construção. De resto, ao longo deste período, o Estado chegou a ter de injetar capital para que fosse possível assegurar a construção de alguns navios.

Em 1990, uma reportagem da RTP a propósito do batismo de um petroleiro construído na Mitrena começava por resumir a trajetória até então realizada pela empresa. “A Setenave é o maior estaleiro de construção naval português e um dos maiores do mundo. Foi criado no início da década de 70 e passou por grandes dificuldades económicas. Por um lado, porque o mercado internacional de construção naval estagnou; e, por outro, porque os primeiros negócios do estaleiro foram feitos em escudos, o que se revelou desastroso para a Setenave, devido às sucessivas desvalorizações da moeda nacional”, apontava-se na peça. O turbilhão de problemas havia-se avolumado até ao final de 1989 e o Governo resolveria então assumir “os 45 milhões de contos de dívidas da empresa para, de seguida, assinar um contrato de exploração da Setenave com a Solisnor”.

A gestão fora privatizada, através da criação da Solisnor, consórcio liderado pela Soponata (maior acionista) e pela Lisnave com participação também de um grupo empresarial norueguês. O contrato assinado em dezembro de 1989 era válido por cinco anos e previa o pagamento de uma renda anual ao Estado. A reportagem da RTP, em 1990, dava conta do batismo do navio-tanque Bornes, com 89 mil toneladas de peso bruto, cerimónia que teve como “madrinha” Maria Cavaco Silva, e que traduzia a conclusão da construção do primeiro de cinco petroleiros que a Soponata encomendara à Setenave.

Na altura, a Solisnor mostrava otimismo em relação ao futuro da Setenave, até porque estava também já em curso a construção de dois cascos para navios da Finlândia e a perspetiva de iniciar a breve trecho a construção de um terceiro. Só que no espaço de uma década tudo viria a mudar. Em 1992, após várias reestruturações, a Lisnave adquiria total controlo das operações no estaleiro da Mitrena e a Setenave, como entidade independente, viria depois a deixar de existir – foi no final de 2000, quando a Lisnave encerrou o estaleiro da Margueira (Almada) e concentrou toda a atividade no estaleiro de Setúbal.

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