Condenado por homicídio por ódio racial recorre ao Tribunal Constitucional

Condenado por homicídio por ódio racial recorre ao Tribunal Constitucional

Condenado por homicídio por ódio racial recorre ao Tribunal Constitucional

Advogado do arguido pede a anulação do acórdão por considerar que a “motivação do crime é inconstitucional”

Ângelo Guterres viu o Supremo Tribunal de Justiça manter a condenação de 23 anos de prisão pelo homicídio motivado por racismo de Gurpreet Singh, indiano de 24 anos, em Setúbal, e vai agora recorrer ao Tribunal Constitucional. O advogado do arguido pede a anulação do acórdão porque o tribunal considerou que o arguido agiu por “motivo racial” e por “motivo fútil”.

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“A dupla punição da motivação do crime (fútil e por ódio racial) é inconstitucional, não podendo ser mantida para majoração tal pena”, arguiu Pedro Pestana, advogado de Ângelo Guterres, no recurso que enviou ao Tribunal Constitucional. O advogado afirma ainda que houve uma violação no dever de fundamentação da sentença, pelo facto de o tribunal ter feito uma interpretação meramente opinativa, um juízo valorativo, sem sequer identificar com base em que prova seria o Recorrente uma pessoa racista. “A condenação por “ódio racial” é suportada por uma valoração meramente subjetiva, tanto é que o Acórdão atinge ao cúmulo de chamar o arguido de “Justiceiro Nacionalista” e “Ferrenho Nacionalista”.”

O crime aconteceu na Rua Engenheiro Ribeiro da Silva, numa casa onde moravam seis indianos nas Praias do Sado, em novembro de 2023. Fábio Guterres, irmão de Ângelo, foi condenado a 13 anos pela cumplicidade nos crimes, mas sem ódio racial.

Ângelo esteve num café na zona de Praias do Sado onde discutiu com cidadãos indianos. Em causa a sua mãe se ter queixado que foi insultada por cidadãos indianos, não estes. À saída do café e conforme foi provado em tribunal, “Ângelo tomou o propósito de tirar a vida a cidadãos indianos que residissem na localidade”.

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O Tribunal deu como provado que sabendo que na casa na Rua Engenheiro Ribeiro da Silva residiam pessoas de nacionalidade indiana, Ângelo Guterres fez destes o alvo. O arguido fez um primeiro reconhecimento ao local, dirigiu-se à casa das vítimas sob o pretexto de falar com um vizinho, seu amigo e verificou que no interior estava quem procurava. Nesse momento, telefonou ao irmão, Fábio, a pedir a caçadeira que este tinha em casa referindo que queria ajustar contar.

No local do crime, Ângelo levantou o estore de um dos quartos onde estava Gurpreet Singh, indiano de 24 anos, voltou a fechar e disparou duas vezes, atingindo fatalmente o indiano no peito. Depois acedeu ao pátio das traseiras pelas garagens, numa caçada para atingir quem fugisse pelas traseiras e encarou Major Singh, disparando outras duas vezes. Atingiu-o no ombro, mas este fugiu de volta para casa, agarrou a espingarda e conseguiu retirá-la do arguido. Ângelo e Fábio, que assistia a todo o desenrolar de acontecimentos, fugiram, mas viriam a ser detidos pela PJ poucos dias depois.

O Tribunal de Setúbal considerou que os arguidos podiam ter sido acusados de tentar matar todos os moradores da vivenda térrea onde a vítima habitava com outros cinco compatriotas, indianos, visto que o que aconteceu foi “uma caçada, sendo as vítimas visadas apenas por serem indianos”, avançou na altura da condenação, o juiz Tiago Prudente.

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O arguido recorreu à Relação e depois ao Supremo, mas sem conseguir qualquer atenuação da pena. Agora, ao TC, o arguido pede a anulação do acórdão ou a reforma da decisão condenatória. “É inconstitucional a aplicação do motivo “ódio racial”, em autêntica violação do dever de fundamentação, por violar o princípio da legalidade e da tipicidade penal. para além disso, a defesa considera inconstitucional a dupla punição da motivação do crime (motivo fútil e ódio racial)”.

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