Beatriz (Setúbal, 1922), Benvinda (São João da Madeira, 1932) e Bia (Évora, 1952) são as três personagens que dominam “Perdeu-se relógio de senhora”, de Alice Brito (Companhia das Letras, 2026), figuras que significam muito mais do que protagonistas individuais, pois carregam também as histórias das regiões a que pertencem, sobretudo nas relações feitas pela sociedade.
“Beatriz, Benvinda e Bia. Adjudiquem-se as vidas.” É a primeira apresentação que a narradora faz das três mulheres com quem a leitura vai conviver numa história que corre durante cerca de 50 anos, até 1974, observação mostrada logo no capítulo inicial, quando, desta forma sumária, são mencionadas como moradoras em Lisboa, à data de 22 de Abril de 1974.
O romance corre organizado em três partes, recuando, em jeito de analepse, aos anos de nascimento das personagens e enriquecido com as informações de contexto ao longo do tempo da acção, até ao retomar dos acontecimentos de Abril de 1974 no final da história (findando com uma narração rápida sobre o ano de 1975 para esclarecer sobre o destino das personagens): a primeira, consagrando um capítulo a cada uma das personagens, contextualiza em termos sociais e históricos o meio a que pertencem e em que vão crescer; a segunda, em que os capítulos continuam a assumir os nomes das personagens nos respectivos títulos, dá conta do seu crescimento, dos seus relacionamentos, compromissos e decisões, com importantes referências à forma de viver nas décadas de 1950 e de 1960; a terceira, dividida em cinco capítulos, corre marcada pelo tempo, dominada pelas marcas da década de 1970, constando em cada título um dos anos dessa década, quase como se estivéssemos em contagem anunciadora do fim da história, cada vez mais próximo.
A narrativa decorre sobre ideias fortes, também elas tomadas de posição, fundamentadas nas histórias contadas e nas vivências das personagens e dos meios que elas frequentam, muitas vezes projectando a crítica para os tempos actuais: a mudança como causa (“a convicção de mudança e, sobretudo, o desejo de mudança estavam presentes, tão presentes como o chão que se pisava”); a violência doméstica (“Leocádio passou a bater-lhe. Bofetões, de preferência. Se ela dizia qualquer coisa, logo a mão dele se levantava em ameaça.”); a desigualdade de estatuto entre homem e mulher (“é assim, filha, tens de aguentar. Mais dia, menos dia, ficas prenha e, com crianças por perto, até te esqueces do resto. Pode ser. Tens sorte que ele não te trata mal. Comigo, as mais das vezes, é à força de porrada. E bêbado. Muita porrada já eu apanhei.”); o poder do consumismo (além de utilidades domésticas, as lojas estavam também atafulhadas de “inutilidades, embora naquele tempo não houvesse a catadupa de porcarias sem préstimo que hoje se compram e nunca se usam”); a prática da justiça (“O aparato de um tribunal era feito de autoridades presumidas e presunçosas, por fardas de seita, vozes especiais e técnicas, perguntas rituais, formas de comunicação encriptadas. O medo, a intimidação, a arrogância e, as mais das vezes, a arbitrariedade faziam parte da civilização judiciária. Ainda fazem.”); o medo e a falta de liberdade (“as palavras podiam custar um preço exorbitante naqueles tempos”); o sofrimento e a tortura provocados sobre os presos pela polícia política (“Não vale a pena perguntar-lhes nada quando cá chegam, que os gajos ao princípio não abrem a boca. É preciso amaciá-los, dizia. Foi de cinto a murro e depois a pontapé, já nu e caído no chão.”).
Além das marcas temporais que surgem nos títulos dos capítulos, o tempo da narrativa vai sendo pautado pelo registo de acontecimentos da história local, nacional ou internacional — entre outros, a inauguração do primeiro troço da linha férrea do Vouga (1908), a greve geral da indústria conserveira, com incidência em Setúbal (1922), a anexação da Áustria por Hitler (1938), as manifestações de regozijo com o fim da guerra (1945), a inauguração da ponte da Arrábida (1963), o cinquentenário das aparições de Fátima ou o assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz (1967), a greve geral em Paris (1968), a chegada do homem à Lua (1969), o lançamento do álbum “Traz outro amigo também” de José Afonso (1970), a vigília pela paz na Capela do Rato (1972), o golpe militar no Chile (1973). A indicação destas e de outras datas, além de ir marcando o tempo, serve para relacionar a memória colectiva com as memórias das personagens (ou o que elas significam), estabelecendo identidades ou afastamentos entre o que foi enaltecido e o que foi vivido, o que foi propaganda e o que foi a realidade.