Recebi com agrado a notícia da candidatura de Setúbal a Capital Portuguesa da Cultura 2028.
Independentemente das legítimas divergências políticas que possamos ter sobre muitas matérias da gestão municipal, importa reconhecer quando são assumidas ambições que valorizam o território, reforçam a sua identidade e projetam a cidade no panorama nacional.
Setúbal tem património, história, criatividade, movimento associativo, agentes culturais de excelência, artistas reconhecidos e uma identidade própria que a distingue no panorama nacional. É, por isso, natural que aspire a ser Capital Portuguesa da Cultura.
Desejo sinceramente que esta candidatura seja vencedora.
Saúdo igualmente a intenção anunciada pela Senhora Presidente da Câmara Municipal de promover encontros com agentes culturais, associações, comunidade educativa, setores económicos, entidades ambientais, juntas de freguesia e cidadãos. A afirmação de que “antes de apresentar Setúbal ao país, queremos ouvir Setúbal” merece ser valorizada.
Mas esta decisão suscita também uma reflexão.
Se a participação dos agentes culturais é tão importante para a construção desta candidatura — e creio que é — então talvez seja chegada a hora de dar um passo mais estruturante: criar um Conselho Municipal de Cultura.
Muitos municípios portugueses dispõem já de órgãos consultivos permanentes que reúnem representantes do movimento associativo, instituições culturais, agentes artísticos, universidades, escolas, fundações e demais entidades ligadas à criação e fruição cultural. Estes espaços não substituem os órgãos democraticamente eleitos, nem retiram competências à Câmara Municipal. Pelo contrário, enriquecem a decisão política através da participação organizada da comunidade.
Um Conselho Municipal de Cultura permitiria que a auscultação do setor não acontecesse apenas quando surge uma candidatura relevante ou um projeto específico. Permitiria que fosse permanente, regular e institucionalizada.
A cultura não deve ser chamada apenas nos momentos excecionais. Deve estar presente na definição das prioridades municipais, na discussão dos investimentos, na preservação do património, na programação cultural, na relação com as escolas e na valorização do associativismo que há décadas sustenta uma parte significativa da vida cultural do concelho.
A candidatura a Capital Portuguesa da Cultura pode, assim, representar mais do que uma ambição para 2028. Pode ser uma oportunidade para deixar uma herança institucional duradoura.
Se queremos ouvir Setúbal, então façamo-lo não apenas durante os próximos meses, mas de forma permanente.
Porque uma cidade culturalmente mais forte não é apenas aquela que organiza grandes eventos. É aquela que cria mecanismos para que a cultura participe, de forma continuada, na construção do seu futuro.
E essa seria uma vitória para Setúbal, independentemente do resultado da candidatura.