Ah, Portugal! Terra de brandos costumes, fado e, de conquistadores e, nós somos efectivamente bons, quando temos as condições. Somos competitivos, somos reconhecidos.
Sempre o fomos. Um país, pequeno, mas bravo. Um país que apesar de tão mal falar de si próprio, está nas economias e rankings dos países que vão no primeiro pelotão do mundo.
Por falar em primeiro pelotão, sigamos todos o exemplo do nosso Eulálio, desconhecido ciclista da Figueira da Foz, que arrebatou a camisola rosa durante nove dias, lutando por cada centímetro, como a vida estivesse a defender.
Ou do nosso humilde Bernardo Silva que ao fim de nove anos em Manchester, no seu City, onde lhe deram condições que o seu Benfica lhe negou, deixou um legado de competência, de talento e de muita humildade, fazendo mais pelo “Made in Portugal” do que 50 campanhas do nosso turismo.
Ou do Ferandes, o Bruno, do outro lado de Manchester, melhor jogador do melhor campeonato do mundo, que bateu igualmente o record de assistências.
Mas Portugal tem dois pequeninos timoneiros, em Paris, que durante esta semana querem conquistar a Europa, mais uma vez, um conhecido por Vitinha e outro é um João, Neves de apelido e, tal qual Bernardo e Gonçalo Ramos é um produto de uma escola de formação do nosso distrito – Setúbal, mais concretamente do Seixal, de onde escrevo estas desalinhadas linhas.
E ironicamente outra das três melhores escolas de formação de talentos de futebol do mundo (ah e o que o futebol representa para o mundo) é também do nosso distrito e fica em Alcochete e deu ao mundo um Figo, um Quaresma, um Futre e, sobretudo um Cristiano Ronaldo, mas ainda esta semana terá um Nuno Mendes, para muitos o melhor defesa esquerdo do mundo.
Por isso, não estranhem que Luís Montenegro, o nosso timoneiro seja tão optimista, mesmo em tempos conturbados como estes.
E, não sejam injustos, porque Luís Montenegro neste segundo mandato confrontou-se com desafios que se avizinham decorrentes primeiro, um “comboio de tempestades” (uma metáfora certamente escolhida por ser mais dramática do que “um chuvinheto persistente”), depois uma instabilidade internacional que parece ter decidido fazer de 2026 um ano, no m´+inimo desfaiante. Estes desafios, por mais ciclónicos que pareçam, “não são portugueses”. Que alívio! Só nos faltava que as intempéries geopolíticas fossem uma invenção lusa, como o pastel de nata ou a sardinha assada.
É refrescante saber que os problemas que nos assombram, a inflação que teima em nos esvaziar a carteira e o PIB que faz um esforço hercúleo para se manter à tona, não têm a ver com o nosso ADN lusitano. É tudo importado, como o azeite italiano que compramos por ser mais barato. O conflito no Médio Oriente, esse sim um flagelo, é o responsável por termos uma “desaceleração da atividade económica”, pela “subida acentuada dos preços das matérias-primas energéticas” e, inevitavelmente, por fazer com que as “perspetivas tenham mudado substancialmente”. Quem diria que uma guerra a milhares de quilómetros poderia afetar o nosso tostão? Que surpresa!
Se a este cenário juntarmos as reformas que se vão fazendo e cujos resultados irão aparecendo com o tempo, temos um período de menor confiança, mas os partidos que estão na oposição, que não esfreguem as mãos pois “O povo não quer eleições, eu até diria, está farto”, como disse Luís Montenegro e os resultados do trabalho realizado vão acabar por aparecer e as pessoas, na hora de votar vão creditar a quem fez e emendou a asneira que outros deixaram.
Em 2029, sim, lá em 2029, o desempenho do Governo será avaliado. E o das oposições também! Ninguém escapa. É um prazo justo, afinal, três anos é tempo mais do que suficiente para desvendar se um comboio de tempestades se transformou num arco-íris, ou se a instabilidade internacional virou um festival de comédia.
Entretanto, as previsões económicas da Comissão Europeia para a primavera de 2026 desenham um cenário… bem, um cenário. O crescimento do PIB da UE, que em 2025 era de uns impressionantes 1,5%, vai abrandar para uns tímidos 1,1% em 2026. Em Portugal, a história repete-se, mas com um toque de heroísmo: “o crescimento se mantenha sólido tanto em 2026 como em 2027”, apesar das menos positivas “perspetivas económicas”. A inflação, essa velha conhecida, vai dar um salto em 2026 e depois, milagrosamente, diminuir em 2027. É quase como assistir a uma coreografia perfeita da economia, onde cada passo em falso é apenas um ensaio para o grande espetáculo.
O desemprego, sempre ele, deverá ter uma “descida marginal” num contexto de “menor crescimento do emprego”. Ou seja, menos empregos criados, mas menos desempregados. Como? Mistérios da economia! E o excedente orçamental de Portugal, esse feito admirável, vai, segundo o guião, transformar-se num pequeno défice em 2026 e 2027. Uma pequena pausa na excelência, para depois a dívida pública continuar, imperturbável, a sua “trajetória descendente”.
Em suma, estamos bem. Os desafios não são nossos, o povo não quer eleições (e ainda bem, pois só em 2029 veremos se os nossos líderes merecem palmas ou vaias), e a economia é um pequeno prodígio de resiliência, mesmo quando o mundo à volta parece estar a desmoronar-se. Resta-nos aguardar pacientemente, como bons portugueses, pelo veredicto de 2029, enquanto o comboio das tempestades passa, a instabilidade internacional faz uma pausa para o almoço, e a inflação, quem sabe, decide tirar férias.
No entretanto, estaremos todos a torcer para termos Portugal campeão do mundo de futebol, com duas fábricas de talento do distrito, sitas em Alcochete e Seixal a mostrarem a excelência do “deserto” da marca “Margem Sul”