Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (1)

Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (1)

Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (1)

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20 Maio 2026, Quarta-feira
Professor

Quando José Saramago, em 1982, publicou “Memorial do Convento”, uma das personagens intensas que inseriu na obra foi a do padre Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), imagem das novas ideias a provocarem estranheza no meio português. O inventor do aeróstato surge no capítulo VI, apresentado com 26 anos (mesma idade de Baltasar Sete-Sóis, outra personagem importante para a narrativa): “no Brasil nasceu e novo veio pela primeira vez a Portugal, de tanto estudo e memória que, sendo moço de quinze anos, prometia, e muito fez do que prometeu, dizer de cor todo Virgílio, Horácio, Ovídio, Quinto Cúrcio, Suetónio, Mecenas e Séneca, para diante e para trás, ou donde lhe apontassem, e dar a definição de todas as fábulas que se escreveram, e a que fim as fingiram os gentios gregos e romanos, e também dizer quem foram os autores de todos os livros de versos, antigos e modernos, até ao ano de mil e duzentos, e se alguém lhe dissesse uma poesia, logo responderia a propósito com dez versos seus ali mesmo compostos, e prometia também justificar e defender toda a filosofia e os pontos mais intricados dela, e explicar a parte de Aristóteles (…) e responder a toda as dúvidas da Sagrada Escritura.”

O que pode parecer um panegírico saramaguiano do sacerdote-inventor nascido em Santos (Brasil) corresponde à pluralidade e riqueza da obra do mesmo, recentemente dada a conhecer pelo investigador Daniel Pires (n. 1951) sob o título “Obra de Bartolomeu de Gusmão” (Imprensa Nacional, 2025), que teve a colaboração de António Mateus Vilhena para a tradução de documentos em latim.

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Na abertura do texto prefacial, Daniel Pires justifica a pertinência da publicação desta obra: “Dois imperativos presidiram à elaboração deste volume: reunir a obra de Bartolomeu de Gusmão e contribuir para demonstrar que, neste importante nome da cultura portuguesa, ao contrário do que as autoridades mais poderosas e os indivíduos movidos pelo preconceito e pela inveja afirmaram, convergiam o idealismo, a procura da transcendência, o visionarismo, a erudição, a criatividade e o espírito científico.” De uma penada, Daniel Pires defende a qualidade da obra e do pensamento de Bartolomeu de Gusmão, sobrevalorizando-a a todas as diatribes orquestradas — desde a perseguição movida pelo Santo Ofício até às ironias de Tomás Pinto Brandão (1664-1743) e de outros, não esquecendo as de proveniência anónima.

Os textos de Gusmão surgem organizados em vários grupos, numa divisão por géneros que, só por si, mostra a diversidade de interesses e de discurso que Gusmão praticou — “cientista, jurista, historiador, poeta e autor de ensaios filosóficos, bibliófilo, orador sacro” —, sendo cada grupo antecedido de uma nota explicativa, com anotações histórico-biográficas, da responsabilidade do organizador do volume.

O primeiro grupo é ocupado com textos abordando temáticas diversas: o projecto da “máquina para se navegar pelo ar”, a construção do sextante, a ideia para uma planta do Observatório Português, o uso de “um invento de fazer subir água”, os modos de extrair água das naus, a obtenção de carvão a partir de terra artificial, os processos de fazer um moinho moer ainda mais.

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Nestes textos, as explicações e as construções argumentativas de Gusmão são cuidadas e até imaginativas. Repare-se nas vantagens de existir a máquina voadora: “ter-se-ão notícias a todo o tempo, tanto dos desígnios como dos exércitos inimigos, sem risco, poderão as praças sitiadas mandar avisos, ser socorridas e retirar-se delas as pessoas que quiserem sem perigo; descobrir-se-ão as terras que ficam debaixo dos pólos do mundo, por cessarem no ar os impedimentos que por mar tem havido. Em uma palavra para todo o comércio, levar cartas, fazer jornadas, passar letras, transportar riquezas e acudir a qualquer negócio, nem se pode imaginar caminho nem mais seguro nem mais breve.” A este rol de conveniências, Gusmão faz acrescer ainda outras características como, por exemplo, a rapidez da comunicação — “no qual instrumento se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos e a terras mui remotas quase no mesmo tempo em que se resolverem”. E o interesse do “invento de fazer subir água”? Com tal equipamento “se podem trazer águas muito distantes e baixar a altura necessária para se fazerem chafarizes e fontes públicas para o mato das cidades e conveniências dos povos”. A resolução do problema da extracção das águas do interior das naus mereceu também uma proposta de Bartolomeu de Gusmão, aproveitando quatro princípios da física e da natureza — “primeiro, o vento; segundo, a correnteza da água que o navio vai cortando; terceiro, o movimento que a nau tem no mar livre; quarto, finalmente, a perpétua inquietação das ondas.”

Observador, curioso e pragmático, Gusmão apresenta os seus projectos de forma quase irrebatível, recorrendo à experiência, às leis da física e à vontade de colocar todo o seu saber ao serviço do desenvolvimento.

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