Artificial Intelligence ou défice de Natural Intelligence?

Artificial Intelligence ou défice de Natural Intelligence?

Artificial Intelligence ou défice de Natural Intelligence?

21 Maio 2026, Quinta-feira
Deputada do CHEGA

Esta semana, apareceu-me nas redes sociais um vídeo com dois opinion makers, daqueles que opinam sobre tudo e mais alguma coisa, mesmo quando o conhecimento de causa não abunda, a criticarem o uso do ChatGPT por políticos. Nada de novo, mas deixou-me a pensar.

Espanta-me que se transforme uma ferramenta num problema quase moral, quando durante décadas se aceitou que certas figuras de grande respeitabilidade pública tivessem outros a escrever por si, a pensar por si e quase a existir profissionalmente por si.

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Neste artigo, vou usar Artificial Intelligence e Natural Intelligence, para lhe dar um ar mais intelectual. Como aqueles que não fazem reuniões, fazem meetings. Não têm ideias, têm insights. Não pensam em conjunto, fazem brainstorming. E, já agora, como os tais comentadores de serviço, que não precisam conhecer bem o tema para falar dele com “autoridade”. Em português, inteligência artificial é apenas inteligência artificial. Mas Artificial Intelligence ganha logo outro estatuto. Embalagem, é certo. Mas ainda há quem não distinga a embalagem da substância.

Fico a perguntar-me onde estavam estas indignações quando assessores, gabinetes e ghostwriters escreviam discursos, artigos, teses e até autobiografias que outros apresentavam como produto espontâneo de brilhantes reflexões pessoais?

Há aqui duas realidades que não devem ser confundidas. Não me escandaliza que alguém com ideias próprias use Artificial Intelligence para organizar o pensamento, rever um texto ou simplificar uma argumentação. É uma ferramenta. Como o dicionário, o corretor ortográfico ou o GPS. Ninguém fica sem sentido de orientação por usar GPS. A ferramenta ajuda no caminho, mas é quem a usa que escolhe o destino.

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Outra coisa é alguém sem ideias viver das ideias dos outros. Consultores pensam por ela. Gabinetes escrevem por ela. Especialistas constroem-lhe opiniões ready-made. Depois, aparece em público com ar autoral, como se tudo tivesse nascido naturalmente entre dois meetings e um expresso.

O escândalo não é alguém com ideias pedir ajuda a uma máquina para escrever melhor. É alguém sem ideias pedir ajuda a humanos para parecer que pensa. O problema não é pedir ajuda para escrever uma ideia. É precisar de ajuda para ter uma.

Se alguém usa Artificial Intelligence para defender posições que não estudou, há claramente um problema, mas não é o ChatGPT. É a falta de caráter e de honestidade intelectual.

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Bem utilizada, a Artificial Intelligence liberta tempo e organiza informação. Esse tempo deve servir para aquilo que a Natural Intelligence tem obrigação de fazer: pensar, ouvir, decidir e assumir responsabilidade.

A questão não é a máquina contra o humano. É saber se há humano suficiente atrás da máquina. Uma ferramenta não substitui uma cabeça vazia nem a transforma numa mente iluminada.

A pergunta não é se há políticos, jornalistas, académicos, gestores ou cidadãos a usar Artificial Intelligence. É quantos continuariam a ter alguma coisa para dizer sem a Artificial Intelligence, a assessoria, o gabinete de comunicação, a consultoria, o teleponto, o PowerPoint ou o copywriter.

Talvez descobríssemos que o problema tem décadas. Nunca foi excesso de Artificial Intelligence. Foi sempre défice de Natural Intelligence.

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