O exílio existiu e fez parte do caminho (1)

O exílio existiu e fez parte do caminho (1)

O exílio existiu e fez parte do caminho (1)

, Professor
30 Abril 2026, Quinta-feira
Professor

Foi Luis Sepulveda (1949-2020) quem escreveu que “todos os exílios duram demasiado tempo e cada experiência é única” (in “Histórias daqui e dali”, 2010), uma frase que não surge do acaso, mas de uma vivência assumida, resultante de uma imposição exterior ao indivíduo, satisfazendo as convicções e a consciência e rejeitando a pressão sobre a liberdade. Se o exílio rouba o espaço de conforto e de identidade, carrega também a coragem da vivência com a memória e com a esperança, alicerces das incertezas e das dificuldades para quem tem de construir uma vida entre o sobressalto e o medo iniciais e a preservação do mais sério de si, a consciência. E, quando a esperança vira realidade, o sentido do caminho completa-se e o caminhante vê-se construtor da liberdade…


É assim que se justifica um título como “O que muitos andaram para aqui chegarmos”, antologia de que saiu recentemente o segundo volume, seis anos passados sobre o primeiro, trabalho devido aos colaboradores-testemunhas e a um vivo grupo, “Poemar” (integrado por Maria Manuel Gandra, Joaquim Rodrigues, Fátima Azóia, Maria José Rodrigues e Mário Campolargo), que tem feito, na Bélgica, um espaço de convívio e de divulgação com os ingredientes que a cultura portuguesa oferece, uma partilha por amor à causa e às artes, um contributo pedagógico para a vida, e que procedeu à recolha.

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O exílio, sejam quais forem as suas razões, é um estado que permanece na história, normalmente resultante de um conflituar com a liberdade do cidadão, numa narrativa do mundo que parece não ter fim, porque a liberdade sempre tem dado azo a que os seus adversários a queiram derrubar, haja em vista o fenómeno migratório a que temos assistido, resultante dessa coacção sobre os povos, uma corrida para a defesa da identidade. É quase a fechar o livro que os organizadores sublinham esse trajecto imparável que leva à situação de exilado — “Nestes tempos conturbados que vivemos, assistimos, numa interrogação muda, à humilhação e a um cruel sofrimento daqueles que buscam o pão noutras paragens ou fogem das perseguições a que são sujeitos, como se fossem párias desprezíveis e criminosos, sem direito a qualquer tipo de humanidade.” E, reconhecendo que estes foram também os caminhos dos oito testemunhos recolhidos, todos com origem em Portugal e termo em Bruxelas, onde recebiam o estatuto de refugiado (com alguns a passarem por Paris), o livro termina com um agradecimento ao país de recepção — “Devemos, pois, à Bélgica e aos Belgas esta mão aberta à Fraternidade!”
Nascidos entre 1939 e 1947, numa geografia que corre de Barcelos a Faro, e chegados ao país de exílio entre 1962 e 1972, pelas memórias destas três mulheres e destes cinco homens (tantos são os testemunhos prestados) passam as razões que os levaram ao exílio, as dificuldades sentidas no caminho da fuga, a maneira como foram recebidos, a diversidade de planos postos em prática para agarrar a vida e o regresso (às vezes, apenas em jeito de visitação) a Portugal. “Diálogo com a memória”, dizem os organizadores no texto de abertura, é o fio condutor deste livro, ainda que tenham notado que nem sempre a memória se quisesse expor, fosse pelo efeito do tempo, fosse pela dificuldade em abrir algumas gavetas, confessando ter sido gratificante “pressentir a hesitação e o pudor de revisitar um passado, para muitos, calado há tantos anos que pertencia já a outra vida; calcorrear com os protagonistas os caminhos e os medos de quem se despiu de tudo e se despediu de todos numa interrogação cega sobre o seu destino; descobrir o heroísmo de quem, no anonimato e na persistência, contribuiu com audácia para a denúncia da ruína; confirmar a existência do amor febril a esse país cinzento que todos queríamos livre e azul”.


Mergulhe-se, pois, neste espaço de visitação às memórias. Elas e eles partiram porque a liberdade não podia ser alimentada, ora pela actividade política que alguns desenvolveram, ora pelas ideias que mostraram, ora pela ameaça real de participação numa guerra colonial, ora pela inquietação demonstrada. Partiram e já tinham tido a experiência da prisão (como foram os casos de Mariana Xufre e de João Corrêa); partiram e já tinham tido o olhar da polícia política a focá-los (como aconteceu com Mira de Lacerda); partiram para contrariar o caminho da guerra colonial (como recordaram Fernando Cabrita, Tenreira Martins, Fernando Gameiro ou Domingos Ribeiro de Campos).

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