12 Junho 2024, Quarta-feira

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Um péssimo trabalho para uma sociedade alarmada

Um péssimo trabalho para uma sociedade alarmada

Um péssimo trabalho para uma sociedade alarmada

O nosso País atravessa uma crise política que eu, com mais de noventa anos, nunca tinha vivido. Os representantes, devidamente credenciados, da nossa justiça, acompanhados da Polícia de Segurança Pública (porque não da judiciária?) fazem buscas em casas e escritórios de umas duas dezenas de pessoas, entre elas ministros, pessoal do governo, um presidente de câmara, gerentes de empresas e outras pessoas, por suspeita de tráfico de influências políticas e até de hipotéticas alterações de legislação para benefício de alguns.
Alem da estupefacção destas diligências incidirem sobre membros do Governo ou de pessoas próximas dele, o sucinto documento que era posto à população do País, deixava ainda uma possível ligação ao primeiro-ministro do nosso Governo (proposta a ser avaliada pelos juízes do Supremo Tribunal de Justiça).
Destas diligências resultaram a prisão de cinco dessas personalidades suspeitas, para interrogatório. O nosso primeiro-ministro, perante esta situação, com a prisão de pessoas que trabalhavam junto dele e com a suspeição que sobre ele parecia haver – pede a demissão ao Presidente da República. Este reúne o Conselho de Estado e marca eleições para o princípio do próximo ano para dar tempo à aprovação do Orçamento para 2024.
Estes pormenores são, desde o primeiro minuto, debatidos na comunicação social com a colaboração de “peritos” (?). Ora, é sobre o nosso sistema de informação que venho fazer algumas considerações. Logo durante o primeiro dia surgem inúmeras informações sobre cada um dos “ainda suspeitos”, detidos e nas mãos do nosso sistema judicial que tinha a missão de, pelos interrogatórios (e por inúmeras escutas de telefone), esclarecer as suas dúvidas e recolher os necessários dados para poderem completar o “puzzle” e concluírem se havia, ou não, indícios de crime.
Porem, em todos os canais de TV, eram transmitidos os telefonemas escutados durante a elaboração do processo, e, em todos os canais, se explicava com pormenores a trama dos possíveis crimes. Nalguns canais os comentadores respondiam às perguntas da locutora e, de telemóveis ligados, iam recebendo das suas “fontes privilegiadas” notícias “na hora”. Os hipotéticos crimes (ainda) eram escalpelizados aos mais ínfimos pormenores. Autênticos julgamentos com condenações na praça pública. Não pude deixar de lembrar os julgamentos populares no Alentejo ou nas grandes fábricas, após o 25 de Abril.
Assisti a grupos de operários expulsarem chefes por serem antipáticos ou com toques ditatoriais. Que me desculpem alguns jornalistas (que têm feito investigações profundas e úteis!) mas nestes três dias tenho assistido a verdadeiras condenações baseadas em pareceres duvidosos e contaminados partidariamente.
Esqueceram que há a presunção de inocência até os tribunais condenarem, o Ministério Público colher muito mais provas, validarem ou não as que têm e tais julgamentos levam (infelizmente entre nós) vários anos! É um péssimo (e aterrador) perigo a que estão sujeitos todos aqueles que se metem a trabalhar para a “coisa pública”.
Eu sei que proliferam os casos de desonestidade e de verdadeiros roubos e atentados ao bem comum, mas o que se passou naquele dia e seguintes tem sido um péssimo serviço à sociedade em que todos nos integramos. A informação é uma necessidade de que não podemos prescindir, mas têm sido tão frequentes os julgamentos na praça publica que qualquer cidadão mais interventivo corre sérios riscos de ficar com o estigma de desonesto se cair “nas garras” dum jornalista que não saiba o que é a ética profissional.
E depois há os chamados analistas – que se dão ao luxo de interpretar os factos, de fazerem juízos de valor e “revelarem” com convicção as intenções e objetivos das pessoas em analise. Dar opiniões, fazer previsões, é uma coisa, fazer afirmações subjectivas com ar de revelações autênticas, é outra.
Onde está o segredo profissional e a presunção de inocência? Já há muito que essas regras sagradas se evaporaram no nosso País, infelizmente!

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