19 Maio 2024, Domingo

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O boletim meteorológico

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O boletim meteorológico

Não estou preocupado com o “anticiclone dos Açores” ou “a corrente fria” que vem do norte de África. Não me quero referir aos profundos fenómenos climáticos que abundam presentemente nos quatro cantos do mundo, ameaçando a própria estabilidade (e até a habitabilidade!) do nosso atual clima que, em boa verdade, anda “meio doido”, provocando furacões, inundações, deslizamentos de terras ou, pelo contrário, secas tremendas.
As minhas preocupações são com outros fenómenos, para mim, mais importantes para o futuro da nossa maneira de viver. Vou ser mais claro!
Há umas décadas, o Papa João Pauio II, de quem não se esperava algo importante, declarou que ia convocar um concílio e, quando lhe perguntaram, surpreendidos, “para quê?”, dirigiu-se para uma janela, abriu-a e disse: “Para entrar ar fresco!”.
E daí surgiu o Concílio Vaticano II que durou uns três anos e do qual saiu, não só uma aragem, mas um verdadeiro ciclone para uma mudança radical da nossa Igreja, então regulada por um outro concilio com umas centenas de anos!
Aqui, em Portugal, vivíamos em ditadura e a censura do Estado não deixava escrever qualquer comentário sobre aqueles esplêndidos documentos. Talvez por isso apenas as celebrações eucarísticas passaram a ser em português (e não em latim) e o celebrante voltou-se para os fiéis, para os quais era costume celebrar de costas!
Na América do Sul, a nossa Igreja ia-se remodelando tendo até dado origem a uma “teologia da Libertação” que era já um verdadeiro furacão de atualização duma Igreja anquilosada e agarrada a orientações medievais e desencarnadas das realidades dum mundo que não parara de se desenvolver e modificar nas suas maneiras de viver.
Os hábitos que mudavam vertiginosamente tornavam obsoletas muitas das regras pelas quais se regia a nossa Igreja. O Papa João Paulo II – no mais longo papado – e viajando pelo mundo despertando multidões, tinha no pelouro da Fé um cardeal Ratzinguer que excomungou a teologia da libertação e muitos dos sacerdotes que a defendiam – vários teólogos e sacerdotes foram condenados pelas suas ideias modernizadoras!
Ratzinguer vem a suceder a João Paulo II como Bento XVI e ao fim duns escassos anos renunciou ao papado – coisa inédita – mas veio mostrar que ser Papa é uma função de serviço como a de outros sacerdotes. Aqui, na nossa diocese, tivemos “uma aragem de frescura” com o nosso primeiro bispo – Manuel Martins – mas também algumas das suas iniciativas foram rapidamente “reprimidas” pela Conferência Episcopal – as iniciativas que não a sua maneira de ser arejada e junto do seu rebanho.
Mas, eis que se segue Bergoglio, vindo lá das Américas – o primeiro Papa vindo daquelas paragens. E começa, não uma aragem, mas um vendaval para “uma Igreja nova”. E que ventania começa a soprar: O primeiro sínodo que promove é sobre a Amazónia – reserva ecológica fundamental – e convoca para Roma um outro sínodo não apenas de clérigos, mas do “povo de Deus”, isto é, com leigos, homens e mulheres, reunião pormenorizadamente organizada, pois queria ouvir os crentes de cada paróquia, para delas saírem um documento da diocese que seria, junto com o de todas as dioceses, para formar um documento do País. E, dos vários países, um documento da Europa e assim chegariam a Roma opiniões de cada continente e daí um texto final, devidamente escrutinado e discutido, que voltará às origens paroquiais, em cada país e diocese, para nova apreciação.
Seguindo o mesmo sistema, voltará a ser discutido em Roma no fim deste ano de 2024 para sair “uma Igreja nova”, arejada, para todos. Este verdadeiro vendaval parece ter certa dificuldade em “soprar” entre nós – refiro-me à nossa Diocese de Setúbal. Isso mesmo: Nem aragem, nem vento e muito menos vendaval.
A nossa Comissão Episcopal reservou o documento de Roma para ser estudado por teólogos e técnicos. Aqui em Setúbal, apesar de termos um bispo novo, ainda não se sente a tal aragem (pelo menos!) de renovação – ainda vejo batinas! Será que o vento sopra mesmo? Ou haverá uma frente fria a opor-se? Ou talvez um anticiclone?
Em boa verdade, o Papa Francisco encontra desde o princípio, uma certa oposição: No fundo há uma questão de poder, há uma certa saudade do tempo em que o nosso Afonso Henriques teve de receber do Papa de então a confirmação de que era rei. Este “bichinho” tem- se mantido quase até aos nossos dias: “O Sr. padre é que sabe…”, “o Sr bispo é que sabe…”. Mas todos ansiamos pela tal “aragem de frescura”, para vivermos um Cristianismo na sua plenitude.

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