Encontra-se em exibição nos cinemas o filme intitulado “Dois Procuradores”, de 2025, escrito e dirigido pelo cineasta ucraniano Sergei Loznitsa, inspirado num livro do escritor e cientista soviético Georgy Demidov, escrito em 1969.
Demidov foi preso em 1938 e esteve nas prisões soviéticas, os famigerados Gulags, durante 14 anos.
Para melhor compreendermos este filme, temos de procurar enquadrar os acontecimentos históricos, no espaço e no tempo.
Estamos em 1937, da União Soviética. Estaline estava a consolidar o seu poder e daí que, entre 1936 e 1938, acentuou-se uma campanha de repressão política em massa, cujo objectivo constituía eliminar opositores, intelectuais, camponeses e minorias, num período histórico conhecido como “O Grande Terror Comunista”.
Milhões de cidadãos foram executados ou condenados a trabalhos forçados em condições desumanas na Sibéria e noutras regiões isoladas.
Alicerçada no seu braço repressor, a temível polícia política NKVD (precursora da KGB), o regime comunista implementou sistematicamente um clima de paranóia, suspeita e terror generalizados. Qualquer pessoa acusada de espionagem, sabotagem ou dissidência era sumariamente executada ou deportada.
É nesta ocasião que se dão os famigerados Julgamentos de Moscovo, processos judiciais que tiveram como protagonista o “outro” procurador do filme, Andrey Vyshinsky que desempenhará, em 1946, idêntica função nos Julgamentos de Nuremberga, onde foram julgados e condenados muitos criminosos nazis.
O objectivo destes julgamentos encenados, era forçar figuras proeminentes do Partido Comunista, velhos bolcheviques, a confessar crimes absurdos que não cometeram, tais como Zinoviev, Kamenev, Bukharin, Rykov, Radek e Pyatakov.
Seriam todos acusados de traição e executados. Estaline pretendia ver-se livre dos seus velhos camaradas de armas, para promover uma nova geração mais receosa, cordata e subserviente.
A esmagadora maioria dos oficiais do Exército Vermelho foi também fuzilada ou presa, o que fragilizou as forças militares soviéticas nas vésperas da 2ª Guerra Mundial.
Assim que entramos no enredo do filme e conhecendo nós o modus operandi comunista, intuímos imediatamente qual será o destino do procurador Alexander Kornyev (protagonizado pelo actor Alexander Kuznetsov), jovem licenciado que recebe um bilhete escrito com sangue, de um professor da sua universidade caído em desgraça e que irá, por todos os meios que (pensa) dispor, para repor a justiça, indo inclusivamente ao encontro de Andrey Vyshinsky, sem sequer possuir entrevista marcada, nem sequer autorização de deslocação entre Briansk e Moscovo, o que constituía, por si só, um crime.
As inúmeras grades das celas que tem sucessivamente de ultrapassar na prisão de Briansk, os olhares gélidos dos carcereiros, a imundície das celas, a resistência das autoridades, quer prisionais, quer políticas, a atmosfera Kafkiana da desumanização do regime comunista, todos estes ingredientes se conjugam no destino final perfeitamente previsível e expectável.
A História deve ser conhecida, e, sobretudo, compreendida.
O ser humano tem comportamentos recorrentes; logo, a História repete-se.
Ontem José Estaline; hoje Vladimir Putin.
Veja-se o que sucedeu, por exemplo, aos advogados que defenderam Alexey Navalny.
Em 2023, Vadim Kobzev, Alexei Liptser e Igor Sergunin, foram detidos e em 2025, um tribunal russo condenou-os por participação em “organização extremista”.
Encontram-se actualmente detidos, numa média de detenções que ronda os cinco anos cada um, e proibidos de exercer advocacia durante três anos após o cumprimento da pena.
O regime russo também abriu processos contra outros membros da equipa jurídica de Navalny, tais como Olga Mikhailova e Alexander Fedulov, acusados dos mesmos crimes, mas conseguiram fugir da Rússia e encontram-se atualmente exilados.
São diferentes os contextos temporais, os protagonistas, os locais, as circunstâncias, mas os resultados são frequentemente os mesmos: a intenção de tentar obter objectivos políticos e condicionar toda uma sociedade, através da ditadura, da violência. E da guerra.
Cabe-nos a nós, democracias, estar atentos e vigilantes, cada um na sua área de intervenção.
A Democracia é um bem precioso e frágil. Não se pode desperdiçar.
Este é um filme que recomendo vivamente.