O pastor e o lobo: como o radicalismo esvaziou a Emergência Climática

O pastor e o lobo: como o radicalismo esvaziou a Emergência Climática

O pastor e o lobo: como o radicalismo esvaziou a Emergência Climática

18 Junho 2026, Quinta-feira
Estudante de Geografia. Presidente da JSD Moita e autarca na Assembleia de Freguesia da Moita

No conto de Esopo, o pastor gritava “lobo!” por tédio, e por achar que ia ser divertido testar os limites da atenção da aldeia. Quando o Lobo realmente apareceu e matou todo o rebanho, já ninguém acreditava nele. A moral é simples e intemporal, o abuso do alarme destrói a confiança.


No debate atual sobre o clima, assistimos quase a uma nova versão curiosa desta história. Hoje, os exageros não nascem do tédio ou da procura por diversão, mas de uma necessidade constante de visibilidade política. E, tal como no Pedro e o lobo, o resultado pode ser desastroso.

- PUB -


A crise climática é real, e sustentada por um corpo robusto de evidência factual. No entanto, a forma como tem sido comunicada através de certos círculos, partidos e movimentos ideológicos, contribui paradoxalmente, para o seu esvaziamento no espaço público. O radicalismo, bastante longe de mobilizar, sensibilizar e informar de forma eficaz, está a construir uma barreira de ceticismo.


Parte do problema reside na progressiva “estupidificação” do debate. Dados factuais e complexos são frequentemente simplificados até ao ponto de se tornarem apenas slogans. Ou pior, são convertidos em dogmas ideológicos inquestionáveis ou em armas de guerra política. Quem levanta dúvidas, mesmo que legítimas e técnicas, é automaticamente rotulado como ignorante ou inimigo. Este reflexo tribal não esclarece, apenas aliena e desvia as pessoas do problema real.


Esse desvio torna-se particularmente visível em certas formas de ativismo performativo. Protestos que passam por colar manifestantes ao chão, bloquear infraestruturas críticas, agredir pessoas, vandalizar património ou encenar gestos disruptivos, todos eles pensados para chocar, podem garantir visibilidade mediática imediata, mas a que custo?

- PUB -


As consequências mais graves deste ambiente são o esvaziamento da própria ideia de emergência e a associação da defesa do ambiente ao movimento ambientalista Woke. A urgência transforma-se em ruído de fundo. O cidadão comum, exposto a uma avalanche constante de alarmismo, deixa de conseguir distinguir entre risco real e dramatização retórica, e todo o problema passa a ser visto pelos cidadãos como um mero jogo político, tornando-se irrelevante.


Quando o tema climático é apresentado como um campo onde só há duas posições, onde de um lado, o problema é simplificado até ao ponto da caricatura, e do outro, rejeita-se tudo em bloco, perde-se o espaço onde soluções reais podem emergir.


É por isto que se torna urgente recentrar o debate e trazer “os adultos de volta à sala”. A direita não pode ter medo de falar de alterações climáticas e de retirar o Clima do campo da guerra de claques. Deve começar a ganhar o espaço onde trata este assunto com a seriedade que ele exige, com rigor científico, pragmatismo político e humildade intelectual. Significa aceitar a complexidade, reconhecer incertezas e comunicar riscos sem recorrer a dramatizações constantes, e assim, voltar a trazer credibilidade ao assunto.

- PUB -


A credibilidade é o recurso mais valioso nesta luta, e sem ela, mesmo as melhores soluções enfrentam resistência. Com ela, torna-se possível mobilizar sociedades inteiras em torno de objetivos comuns.


No final, a lição da fábula mantém-se relevante. Se queremos que as pessoas respondam quando o “lobo” aparece, e ele já está a aparecer, precisamos de restaurar a confiança na mensagem transmitida.

Partilhe esta notícia
- PUB -

Notícias Relacionadas

, Ex-bancário, Corroios
16/06/2026
- PUB -
- PUB -

Apoie O SETUBALENSE e o Jornalismo rumo a um futuro mais sustentado

Assine o jornal ou compre conteúdos avulsos. Oferecemos os seus primeiros 3 euros para gastar!

Quer receber aviso de novas notícias? Sim Não