12 Junho 2024, Quarta-feira

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Cultura e poder local: um pesadelo chamado Sesimbra

Cultura e poder local: um pesadelo chamado Sesimbra

Cultura e poder local: um pesadelo chamado Sesimbra

Opinião: Pedro Martins

 

Inaugurado em 2005, o novo edifício da Biblioteca Municipal de Sesimbra manifesta sinais de crescente degradação na sua fachada. Num canto da sala de leitura para adultos, baldes de plástico mitigam, pelo Inverno, o gotejo das infiltrações. Dos treze computadores que, de início, se encontravam à disposição dos leitores não resta operacional senão um. Tudo isto, que é do conhecimento do titular do pelouro da Cultura, o Presidente Francisco Jesus, não parece, todavia, suscitar-lhe o menor sobressalto: vale, aliás, como um símbolo da miséria a que chegou a realidade cultural do concelho.

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Quem manda não faz a menor ideia do que está em causa. Ainda nem há um ano Jesus elogiou como gesto criativo e de promoção literária a acção de um colectivo internacional Acción Poetica, que andou a espichar nos muros do concelho frases de recorte literário e alcance sapiencial tais como: «Não procures encaixar-te se nasceste para te destacar!!!» ou «Não pares até te orgulhares de ti!!!». Quanto à promoção da leitura, registe-se o recente outsourcing de um atelier-furgoneta, estacionado à ilharga do edifício da
Biblioteca, mas à margem da actividade desta instituição e da sua mui experiente e qualificada equipa, e quando nela, aliás, decorriam actividades de animação cultural, o que
revela total falta de confiança nos trabalhadores municipais e faz tábua rasa de folhas de serviço cheias de provas dadas, tanto mais que a ideia não foi a de se pôr o veículo a rodar
pelas aldeias do concelho aonde a leitura pública não chega, tirante o recheio manhoso de putativos frigoríficos-biblioteca que nos fazem suspirar pela chegada melodiosa da carrinha da Family Frost.

No meio deste panorama desolador, impõe-se um fenómeno que assume foros de calamidade. São os rios de dinheiro público amiúde sorvidos pela boca hiante de um mostrengo chamado Carnaval, que em Sesimbra é sambista e é todo ano. E por isso o inefável Megasamba virá, por estes dias, fazer o inferno na sede do concelho, sempre com o incondicional apoio camarário. No ano que passou, a edilidade chegou mesmo ao ponto de difundir, nas redes sociais, um vídeo com as exortações ufanas de dois protagonistas do
evento, um deles asseverando que este – o samba – era o nosso folclore!

Esta lógica eventista em que o aparato e o entretenimento camuflam a vacuidade boçal redunda fatalmente na asneira grossa: quando, no final de 2021, por todo o país, e em particular na Grande Lisboa, as autarquias locais, devido à emergência de uma
nova vaga pandémica, anunciavam o cancelamento das festividades de Ano Novo, ainda a Câmara de Sesimbra persistia, orgulhosamente só, no salutar propósito de realizar um grandioso festival pirotécnico na baía, ao mesmo tempo que determinava o encerramento, por uma larga quinzena, da Biblioteca Municipal. As bibliotecas públicas, como se sabe, são perigosos focos de contágio do vírus SARS-CoV-2, dadas as multidões que nelas pululam como hordas. Já os arraiais com foguetório rivalizam em vivalmas com o ermo
transtagano quando o sol nele está a pino. Sucedeu, porém, que as autoridades locais de segurança, num inexplicável gesto de obstrução ao desenvolvimento económico, emitiram parecer contrário à realização do espectáculo. E o cancelamento desapontou-me, tanto mais que no programa se anunciava a audição de trechos de obras musicais de, entre
outros, Richard Strauss, «autor», segundo a edilidade, «de algumas das mais famosas valsas de todos os tempos», e de Tchaikovski, que, con forme se podia ler, «compôs várias óperas incontornáveis, como “O Lago dos Cisnes”». Logo houve quem, desmancha-prazeres, saísse a terreiro, afiançando que os das valsas seriam os irmãos Johann e Joseph
e que O Lago dos Cisnes não passava de um bailado, ou de uma suite, sem sombra de bel-canto associada à partitura…

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A errata releva, porém, da má-língua, pois nestas andanças da cultura, a Câmara de Sesimbra prima sempre pelo rigor. Tem até uma revista, muito científica, claro está, denominada Akra Barbarion que, no seu número de 2020, anunciou, com foros de apocalíptica revelação, uma caravela “tipo Sesimbra” que nunca existiu senão na tresleitura de quem a imaginou. E é esta mesma revista que, numa freima elitista, exclui das suas páginas o grande António Reis Marques, autor autodidacta de uma obra que o tornou uma lenda viva da cultura sesimbrense. Há quem confunda ciência com notas de rodapé…

Vai longa a crónica de jaez anedótico, mas importa ainda chamara atenção para o definhar das edições municipais, área em que, há duas décadas, era Sesimbra uma referência nacional; para um Museu Marítimo cheio de um estranho amor-próprio, mas pobre em peças, sem incorporações de relevo, avesso a exposições temporárias e desprovido de um mero roteiro; para um Museu Arqueológico que simplesmente não existe, a despeito da valia da sua colecção, das mais ricas do país e cujas peças vão, por depósito, enriquecer outros areópagos; para um Cine-Teatro mainstream, onde a música de câmara, a música orquestral, o grande teatro e a cinefilia não têm cabidela, e onde a projecção de fitas só agora, no período de vilegiatura, conhece algum incremento, em clara demonstração de que um instrumento que deveria servir para contrariar a sazonalidade (e a desertificação que lhe anda associada), acaba precisamente por a acentuar.

Ao cair do pano, uma palavra de efusiva saudação a’O Setubalense e aos leitores deste venerando título da imprensa portuguesa, agora a comemorar 168 anos de existência.
Muitos parabéns!

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