No volume das “Obras de Bartolomeu de Gusmão”, Daniel Pires, depois dos textos alusivos aos inventos do sacerdote brasileiro, incluiu um escrito jurídico, produzido por Gusmão a pedido de D. João V para contestar a sentença que atribuíra o pecúlio da Casa de Aveiro a Gabriel de Lencastre, Duque de Banhos, em vez de ser a D. Maria de Lencastre, Marquesa de Unhão. Das quase quatro centenas de artigos constantes nas alegações o leitor fica a conhecer uma dúzia (aqueles que estão mais despojados de conceitos jurídicos), conjunto de princípios em que se cruzam os acontecimentos históricos do relacionamento entre Portugal e Espanha com o respeito pela Coroa portuguesa fortemente fundamentados.
O grupo dedicado aos textos de cunho histórico é ocupado com as transcrições das intervenções que Bartolomeu de Gusmão teve nas sessões da Academia Real da História Portuguesa, sobretudo dando conta do andamento do seu trabalho “Memórias para a História do Bispado do Porto”, registadas nas respectivas actas. Das notas efectuadas em tais relatos, fica no leitor a ideia da ponderação, do espírito crítico, da inovação e do rigor como apanágio do trabalho de Gusmão, visível nas observações feitas à metodologia seguida pelos seus antecessores e nas dúvidas perante certas informações e perante alguns documentos — na sessão de 27 de Agosto de 1722, ao anunciar que estava quase pronta a parte respeitante aos dez primeiros séculos das “Memórias”, disse que “brevemente entregaria esta primeira parte da sua obra, em que protestava que não procurara seguir mais que a luz da verdade quanto lhe permitisse a escuridão em que aqueles tempos estão envoltos, e que, com a mesma sinceridade, a todo o tempo que reconhecer o contrário seria o primeiro que confessasse que errara.”
Dois poemas e dois textos de carácter filosófico integram um outro grupo. Os primeiros, dirigidos a figuras conhecidas de Gusmão, valorizam o discurso da jurisprudência e da verdade; os segundos giram em torno de valores — o papel do louvor no contributo que pode ter para a virtude ou para a vaidade, num (“o verdadeiro louvor é um testemunho da opinião que tem de nós um varão prudente, que se não deixa enganar com as aparências. A vaidade é quando se estima mais o ser louvado que merecê-lo ser. Logo, se o sujeito é capaz de vaidade, não é capaz de louvor; pois não pode ser capaz de louvor quem ama mais o louvor que o merecimento.”); a utilidade da prudência e da temperança, noutro (“a prudência ilustra o entendimento e a temperança aperfeiçoa a vontade, e bem pode ter ilustrado o entendimento quem tiver muitas imperfeições na vontade. A prudência ensina a conhecer as paixões alheias, a temperança a vencer as próprias e não se segue que saiba sujeitar as paixões próprias quem sabe conhecer as alheias.”).
Relativamente à bibliofilia, o contributo que Daniel Pires (responsável pela obra) aponta é o da importante lista de livros indicados por Bartolomeu de Gusmão para a biblioteca régia, a serem adquiridos em França, em que constam títulos relacionados com áreas como a política, a economia, a geografia, a navegação, entre outros.
Os textos parenéticos ocupam parte significativa desta obra, constituída por quatro sermões, que, segundo o organizador, demonstram “capacidade argumentativa, convicção e um pensamento lógico linear”. Num primeiro grupo, situam-se o “Sermão da Virgem Maria Nossa Senhora” (Salvaterra, 26 de Abril de 1712), o “Sermão a Nossa Senhora do Desterro” (São João de Almedina, 9 de Janeiro de 1718) e o “Sermão do Corpo de Deus” (freguesia de S. Nicolau, 1721), todos eles eivados de uma coerência forte, longos e muito preocupados com o acompanhamento da reflexão pelo auditório, sempre desafiado através de perguntas e de orientação do pensamento, repletos de ensinamentos — “nunca foi seguro ajuizar de pensamentos alheios, principalmente quando se põe de parte da sua natural escuridade o tempo”, “fazer um benefício e estar à vista é ofender o benefício”, no primeiro; “nada no mundo está isento de velhice, os viventes e os que o não são; as cidades, as repúblicas, os impérios; a mesma terra, e até os mesmos céus envelhecem”, “o mais agradável património que a natureza nos deixou é a pátria e os pais”, no segundo; “quando queremos infundir a alguém pensamentos grandes, lembramos-lhe quem é e as obrigações com que nasceu”, “ninguém é grande senão comparado com quem é menos”, no terceiro.