“Enquanto caminhava, Laura pensava em si como uma personagem de um livro, cujas falas deveriam permanecer em branco.” Está o leitor a acompanhar a personagem principal do romance “As Longas Noites de Caxias”, de Ana Cristina Silva (Planeta, 2019), logo no capítulo inicial, “Caxias, Maio de 1973”, no dia em que é levada para o Reduto Sul da prisão de Caxias para ser interrogada sobre a sua acção política, tempo em que vai conhecer outra mulher, Leninha, agente da PIDE, que a vai marcar pela brutalidade do trato. Este pensamento atribuído a Laura justifica que se converta em literatura a história do que foi a perseguição política, resultado de pesquisa e de recolha de testemunhos sobre o tratamento dado aos presos em Caxias.
Esta obra (que teve adaptação dramática em 2022 pelo Teatro do Noroeste, de Viana do Castelo, com texto de Ricardo Simões) traz-nos uma história absolutamente perturbante na luta entre as ideias e a repressão, mostrando que devem ser a liberdade e a consciência a singrar nos caminhos da vida.
O romance, dedicado “a todos os resistentes anti-fascistas”, constrói-se sobre 23 capítulos, constando em todos os títulos dois tipos de referências — um local e uma data. A acção vai sendo contada com recuos no tempo, que vão intervalando entre presente e passado a partir do momento em que as duas personagens, Laura e Leninha, se encontraram, em Maio de 1973, na prisão de Caxias.
A primeira história de personagem que vamos acompanhando é a de Laura, desde meados dos anos 50, com início em Mértola, criança “que gostava de dar voz às suas dúvidas” e que, na década seguinte, estará a estudar em Beja, passos de um percurso que a levará a Lisboa no início dos anos 70 para estudar Direito, apaixonando-se pelo estudante José António e assumindo um compromisso político de contestação. A morte deste estudante, em Outubro de 1972, provocada por tiros de um agente da PIDE durante uma reunião de estudantes no Instituto de Ciências Económicas e Financeiras, levará Laura a denunciar ter havido um assassinato, acusação que vai motivar a sua prisão.
A segunda história de personagem diz respeito a Leninha, de seu nome próprio Maria Helena, que recua até aos anos 40, em Setúbal, terra onde nasceu e onde, desde cedo, no dia em que foi com o pai até à Avenida Luísa Todi ver o desfile de recepção a Salazar, sentiu o destino traçado graças a um pequeno acontecimento: “Maria Helena e o pai pararam à frente de uma fila de gente no preciso momento em que o carro de Salazar estacionou. A rapariga sentiu o coração na garganta ao ver aquele homem já idoso dirigir-se a ela. Ele perguntou-lhe o nome, sussurrando-lhe ao ouvido. Como se a sua voz pudesse estilhaçá-la, Maria Helena respondeu num murmúrio. A seguir, quando Salazar lhe beijou a testa e a multidão aplaudiu, soube que aquele era um momento único e que o iria recordar para toda a vida.” O percurso de Leninha seguirá até Lisboa, onde trabalhou na década de 60 como administrativa na Rua António Maria Cardoso e, depois, como agente da PIDE em Caxias, passando a viver em Oeiras.
A última vez em que Laura e Helena se encontram é no Tribunal Militar, em 1977. No fim do julgamento, “passou-lhe pela cabeça a ideia fugaz de lhe dar um murro no estômago, mas quando se cruzou com Leninha esboçou um sorriso ambíguo e fez-lhe um manguito com os dedos, um gesto de silenciosa vingança” e “uma súbita serenidade nasceu daquela bofetada sem mão”. No derradeiro encontro que tem com a amiga Maria José, em 2003, Helena recorda as prisioneiras que castigou, lembrando-se “do prazer sentido ao espancar aquelas mulheres”, e, quando a amiga lhe pergunta se tem remorsos, a resposta é contundente: “Não, nunca me arrependi de nada. Os tempos na PIDE foram os mais felizes da minha vida.”
Algumas personagens que agem neste romance carregam marcas históricas na medida em que as conseguimos reconhecer a partir de acontecimentos no país, como no caso de José António Ribeiro dos Santos (1946-1972), o namorado morto, ou de Leninha, que, mesmo aparecendo com o nome próprio de Helena, se refere à agente da polícia política, a setubalense Maria Madalena Oliveira (1934-2003), ou ainda dos inspectores Óscar Cardoso, Silva Carvalho e Adelino Tinoco, que também integram a história narrada. A autora regista, aliás, numa nota inicial: “esta obra baseia-se em factos verídicos”, sabendo-se, contudo, que alguns “nomes e situações foram ficcionadas”.
“As Longas Noites de Caxias”, de Ana Cristina Silva, é um romance em que predomina o ambiente psicológico, com uma caracterização de personagens intensa, numa luta contra o medo ou a favor da imposição do medo, não pretendendo nenhuma das personagens convencer a outra, antes mantendo cada uma delas o seu pensar e as suas marcas pessoais até ao fim da narração, em 2003. O ambiente de terror, provocado pela perseguição da polícia política e pelos informadores anónimos, surge caracterizado logo no capítulo inicial: “O medo era pior do que o mar; era um sentimento que se insinuava nas meias palavras, mas também nas pausas entre as palavras.”
Apesar dessa pressão exercida pelo pavor e pelas barbaridades que Helena executou para a fazer falar, Laura é a personagem que vence a agente pelo silêncio quanto ao comprometimento dos outros — “Maria Helena havia sempre de conservar na memória aquela rapariga franzina chamada Laura Branco. Essa presa resistira dezoito dias sem dormir. Nunca dissera nada de comprometedor, pelo contrário, desafiara todos os dias os agentes com as suas provocações. (…) Representara um desafio, tendo suplantado todas as outras detidas.” Uma agente policial derrotada perante a consciência e a convicção da importância de se ser livre…