De corpo franzino, lá ia o gaiato, na altura meu aluno de música, sempre de fugida ao som do toque da saída. Enrolava as costas, quase corcunda, provavelmente, para que a sua mochila, proporcionalmente maior do que ele, não lhe batesse nas delgadas pernas. Depois, esgueirava-se, como se fosse uma lebre e corria, ágil e rasteiro.
Mas, se acaso me visse, nem que tivesse de mudar o seu rumo, lá vinha ele cumprimentar-me, sempre afetuoso, com dois beijos francos e dóceis.
Entretanto, naquele tempo, ele já estava na fase de aprender a ler e a escrever, no primeiro ano. Contudo, como tinha dificuldade em pronunciar certas palavras, era mediante a sonoridade da sua própria dicção que ele, assim mesmo, as escrevia.
Certo dia, fez-me uma declaração encantadora, numa modesta e amachucada folha de papel, com um coração tal como ele, magriço, que dizia:
Eu goito de ti.
Assim que pude, elogiei-o na sala de aula, ao revelar o seu lado terno e carinhoso.
Agradecida, e num tom discreto e aligeirado, emendei-o:
Não é goito, mas sim gosto.
Aceitou bem a minha correção, com um sorriso rasgado, e, alguns dias depois, este meu admirador beijou-me, e trazia consigo um outro papelinho, igualmente amarrotado.
Nele estava escrito:
Gosto muitu de tim.
Desisti de fazer qualquer tipo de reparo, porque afinal, o amor não está nas palavras, mas nas ações. E ele ainda tinha muito tempo para aprender a escrever corretamente.