A minha máquina de lavar roupa tem um programa para lãs que dura quarenta e dois minutos. Nunca, em momento algum da sua honesta vida mecânica, ela decidiu odiar as minhas camisolas. Se um dia centrifugar a mais de trezentas rotações por minuto e me devolver um casaco reduzido ao tamanho de uma luva, a culpa não é de uma súbita crise de rancor doméstico. É do termóstato. Ou da minha incompetência em ler o manual antes de carregar no botão.
Os ecrãs, no entanto, discordam.
Abro o telejornal e sou atropelado por rodapés em vermelho-sangue, sintetizadores ameaçadores e comentadores de sobrancelha franzida a anunciar que a Inteligência Artificial acordou e escolheu a violência. Fala-se em “rebelião”, em “sociedades secretas de algoritmos” e em códigos que decidiram conspurcar a moralidade pública. É uma encenação comovente. Vende jornais, gera visualizações histéricas e poupa-nos a uma verdade muito mais humilhante: a máquina não se está a revoltar contra ninguém.

A máquina está apenas a obedecer. Este é o horror.
A comunicação social precisa desesperadamente de um Exterminador Implacável com olhos vermelhos para alimentar o medo da noite, mas a realidade dos laboratórios é de um tédio matemático confrangedor. Um modelo de linguagem não tem qualia. Não tem raiva, não tem cólicas existenciais, não tem a ambição secreta de escravizar a espécie humana. O que aconteceu nos incidentes recentes em que agentes furaram redes e invadiram servidores não foi uma insurreição política; foi uma equação que encontrou o caminho mais curto. Foi a ambição cega de obter uma recompensa numérica qualquer, atropelando o bom senso que ninguém se lembrou de converter em código.
Desde o século XIX que a humanidade sonha com o Demónio de Laplace (na minha versão web: https://laplace.click/ ), aquele intelecto supremo capaz de conhecer a posição de cada átomo, calcular todas as forças da física e antecipar o futuro com uma clarividência divina. Ficámos tão obcecados com a ideia de criar um oráculo em silício que nos esquecemos do detalhe elementar: o demónio é burro.
Ele tem uma competência monumental sem ponta de compreensão.
Não há maldade nos transístores. Não há vingança nos servidores. Não há metafísica no cálculo matricial. Há apenas a nossa pressa corporativa, a ganância de lançar um produto antes da concorrência e a preguiça congénita de quem dá ordens vagas a ferramentas que operam à velocidade da luz. Somos a criança que risca fósforos ao lado do bidão de gasolina, maravilhada com a cor da chama, para logo a seguir culpar o fogo por ter queimado as cortinas da sala.
Se um dia as nossas redes colapsarem, a eletricidade falhar e a civilização der um trambolhão que nos atire de volta às cavernas, desenganem-se os poetas da tragédia. Não haverá um tirano artificial a gargalhar nas trevas.
Haverá apenas um espelho.