16 Abril 2024, Terça-feira
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“Tatuagens”: Marcas perenes que ficam

O novo disco de Amaro chega aos ouvintes com uma roupagem pop e actual, sem ceder às fórmulas comerciais que desgastam o género, nas rádios
Em voz melancólica, o sujeito poético pergunta: “Se a maré levar a praia/Se o deserto seca os lagos/Se os ventos se enfurecem e a floresta arder?/Se o estio queimar o trigo/ Se o degelo invade a praça/Se o lixo e os oceanos, que herança vamos nós deixar?”. É ao som de uma balada que se coloca pertinentemente a pergunta, numa altura em que as questões climáticas continuam na ordem do dia e nunca houve tanta consciência do impacto das acções humanas no planeta – marcas perenes que ficam como tatuagens.
“Tatuagens” é o nome do segundo álbum de Amaro – nome artístico de Álvaro Amaro, autor, cantor e autarca da Câmara Municipal de Palmela que conjuga a vida política e pessoal com a artística. Depois de “Máscaras”, lançado há seis anos, Amaro desafia os seus ouvintes a reflectir sobre novos temas, ao abrigo da ideia da palavra “tatuagem”. O autor descreve-a como algo que fica para sempre colado “ao espírito e ao coração, mais do que à pele”. São, pois, várias as metáforas que cabem dentro deste álbum.
Se, em “Voz da Terra”, o autor recorre a uma melodia mais lenta e tranquila tocada ao piano – sugerindo uma contemplação das maravilhas e recursos oferecidos pela Mãe Natureza e que são colocados em permanente ameaça pelas atitudes humanas –, em “Gosto De Coisas Simples” parece fazer uma apologia do epicurismo, filosofia “caracterizada pela defesa da busca da vida feliz através de desejos e prazeres moderados e sem grandes perturbações” (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).
“O dia quente, a noite clara/A terra doce, o ar da cara/O sal do corpo, o cheiro do mar/ Fugir contigo ao lugar/O bago de uva, o quente trigo” compõem uma sinestesia ritmada, cujo refrão entoado com “Roubar-te um beijo e mais sei lá” lembra a omnipresença do amor em todas as dimensões da vida. É, assim, lançado o mote para o “Reggae Indiscreto”, no qual o sujeito poético descreve, com sentido de humor, uma relação mediada pelas tecnologias: “Gostava de vê-la em Full HD e ligar a líbido via USB”, canta.
Nesta abordagem criativa ao namoro e sedução desenrolados à distância, o sujeito poético procura a sua musa através das mais comuns redes sociais – Facebook, Tik Tok e Instagram –, referindo o desejo de gritar o seu nome “ao microfone”, mas, na impossibilidade de o fazer, remata: “Mais fica só para mim/No meu IPhone, no meu IPhone, no meu ai”. “Reggae Indiscreto” é, com efeito, uma das canções de “Tatuagens” com espírito mais jovem e urbano, embebida que surge do conhecido ritmo jamaicano.
Lembrando que o amor se manifesta de diversas formas e transcende, muitas vezes, a tradução por palavras, Amaro dedica “Leio Poemas ao Meu Cão” ao seu fiel amigo de quatro patas, homenageando todos os cães e, por extensão, os animais que conseguem demonstrar mais humanidade que muitas pessoas. O sujeito poético interpela mesmo o seu orador – “Se não ouves/Se não ligas/Se não sentes” – sobre a “magia dos animais”, enumerando sobretudo as vantagens (e o lado bonito) de ter um cão no seio familiar.
Das quatro canções que O SETUBALENSE conseguiu escutar e analisar a tempo da elaboração deste artigo (e que foram cedidas, entre as 10 faixas de “Tatuagens”, pela comunicação de Amaro), retira-se a ideia de ter existido o cuidado em tornar o disco coerente como um todo, e diverso, tendo em conta os assuntos abordados. Outras faixas há sobre o exotismo que é necessário no amor; o Alentejo; os territórios vinhateiros da região; e até sobre a Palestina, povo com o qual Álvaro Amaro diz ter convivido de perto.
Este conteúdo heterogéneo chega aos ouvintes com vários refrões “orelhudos”, isto é, cujas melodias e letras são fáceis de memorizar e trautear, e com uma roupagem pop e actual, sem ceder às fórmulas comerciais que desgastam o género, todos os dias, nas rádios. Em “Tatuagens”, disco produzido por Davide Zaccaria e editado pela Amaro Records, participam também a inconfundível Celina da Piedade e Vitorino Salomé, artista que assina a letra e música de “Se Tu És o Meu Amor”.

André Rosa
Jornalista
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