27 Junho 2022, Segunda-feira
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E os que estão de fora

Peço vénia a Frei Ventura por usar o título duma intervenção dele transcrita no jornal católico “Sete Margens” a propósito de vários inquéritos feitos por esse jornal sobre a evolução em Portugal da sinodalidade.  Partindo do princípio, possivelmente errado, de que muitos leitores de “O SETUBALENSE” não estejam familiarizados, ou mesmo desconheçam o que ela significa, permito-me, antes de desenvolver o tema a que me proponho, fazer uma curta explicação.  Sinodalidade significa duma maneira simples e sintética – “caminhar juntos”. Ora o nosso atual Papa Francisco tem em mãos uma verdadeira revolução na orgânica da Igreja católica. Todos estamos familiarizados, mesmo os não cristãos, com uma verdadeira hierarquia da Igreja: o Papa em Roma no bico da pirâmide, depois uma assembleia de cardeais a que se chama Cúria, depois os bispos à testa das Dioceses que, por sua vez, se dividem em paróquias com um presbítero (um padre) a dirigir. Esta pirâmide “governa” os fiéis ou leigos. No apoio ao pároco podem existir ainda “ajudantes” chamados “diáconos”.

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Esta construção piramidal nasceu nos tempos em que um imperador romano se converteu e em que os cristãos viviam escondidos e eram barbaramente assassinados, lançados aos leões, crucificados ou queimados. Assim a estrutura da Igreja foi uma cópia da estrutura do império romano com um imperador, um senado e vários delegados do imperador, governando as várias províncias do Império que cobria a quase totalidade da atual Europa. A par desta hierarquização a vida da Igreja foi-se organizando em formalismos e ritualismos que, com o tempo, se foram verdadeiramente fossilizando, perdendo o verdadeiro “sumo” da mensagem, da maneira de viver  a que tudo isto deu origem – a vida de Jesus Cristo que nada teve a ver com esta organização que desvirtua completamente  a Sua “Boa Nova”, o Seu Evangelho,a centralidade do amor aos pobres, aos excluídos, aos doentes, a todos os marginalizados da sociedade.

A partir de certa altura os Papas passaram a doutrinar sobre o viver humano com a publicação de cartas (Encíclicas) sobre os problemas sociais. Há uns 60 anos o Papa João XXIII convocou todos os bispos e teólogos do mundo num Concílio que durou três anos e donde saíram preciosos documentos sobre toda a orgânica  e missão da Igreja, sendo uma das principais novidades a centralidade do “povo de Deus”. Mas a situação da hierarquia pouco se mudou na prática – o poder continuou nas mãos da hierarquia sacerdotal. O mundo foi evoluindo, a ciência tem um desenvolvimento enorme e a Igreja/hierárquica continuava afastada dos fiéis que aos poucos foram-se afastando duma Igreja quase fóssil e desencarnada do mundo real. E depois do longo papado de S. João Paulo II, e da inédita resignação de Bento XVI, surge o Papa Francisco que, na sua simplicidade, mete ombros a uma verdadeira revolução e convoca um Sínodo para 2023 preparado com minúcia e querendo que cada bispo ouça os diocesanos todos, devendo daí sair um documento para ser apreciado em conjunto por todos os bispos de cada continente e, só depois desta plena e vasta consulta, se reúna o tal sínodo em 2023. E é desta consulta da maioria dos cristãos, assim caminhando em conjunto, que nascerá uma Igreja renovada – esta caminhada é a “sinodalalidade”.

Ora pergunta-se como tem sido esta marcha, quem tem sido ouvido e quando veem a público documentos das consultas e reuniões dos fiéis em cada diocese? Ora o tal Jornal digital “Sete Margens” tem feito inquéritos sobre o tema e é aí que surge a pergunta de Frei Ventura “quem ouve os de fora ?” porque não parece ter havido um esforço de ouvir, para além dos que ainda frequentam as celebrações, toda a maioria daqueles que insatisfeitos com o excesso de ritos e se sentem tristes por verem a apatia dos que se dizem cristãos para a solução dos graves problemas das desigualdades, da pobreza, da deficientíssima distribuição das riquezas, do fosso entre classes sociais, do pouco respeito pela dignidade dos seres humanos – quem ouve os que  estão de fora? Parece-nos pertinente a pergunta de Frei Ventura. Não continua a Igreja fechada?

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