“A primeira grande mudança será nos próprios setubalenses”

“A primeira grande mudança será nos próprios setubalenses”

“A primeira grande mudança será nos próprios setubalenses”

João Abrantes e João Mendonza revelam as prioridades do projeto e explicam porque acreditam que a transformação da cidade começa nas pessoas

A candidatura de Setúbal a Capital Portuguesa da Cultura 2028 entra agora numa nova fase, depois de concluído o processo de auscultação pública que reuniu agentes culturais, associações, escolas, instituições e cidadãos em torno da construção do projeto. O documento final será entregue em setembro, mas, para a equipa responsável, o verdadeiro objetivo vai muito além da decisão do júri.

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Assente no lema “Setúbal – Mar de Cultura”, a candidatura pretende afirmar uma visão alargada da cultura, colocando a comunidade no centro do processo e defendendo que o maior legado não será apenas um ano de programação cultural, mas uma transformação duradoura da cidade e do seu tecido associativo.

Em entrevista a O SETUBALENSE, João Abrantes, coordenador da candidatura e João Mendonza, diretor artístico, explicam o modelo que procuram distinguir das restantes cidades concorrentes, defendem uma cultura que ultrapassa as artes performativas e falam da importância de envolver os setubalenses na construção deste projeto. Convictos de que o sucesso da candidatura depende da participação da comunidade, garantem que o principal desafio começa depois de 2028 e apontam já à ambição de uma futura candidatura de Setúbal a Capital Europeia da Cultura.

Qual é a importância desta candidatura para a cidade de Setúbal?

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J.A. Setúbal vive momentos como todas as cidades vivem. Todas as cidades em evolução vivem momentos de maior ou menor tensão. É normal.

E uma das questões que se coloca sempre é… “Mas esta candidatura é prioritária?” A cultura sempre é prioritária.

Por isso é que é tão importante para Setúbal. Porque a cultura é a única área que consegue dialogar com todas as outras e consegue criar consensos.

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A primeira reunião foi uma excelente exemplo disso. Numa cidade que vive momentos complicados, apesar de normais no seu desenvolvimento. Ter uma reunião com 100 pessoas, não só a assistir, mas também a dar os seus contributos, é demonstrativo.

Não houve críticas exaustivas. Ninguém foi interrompido. Nós deixamos falar toda a gente, quisessem falar 1 minuto ou 10 e não deixamos que ninguém ficasse com nada por dizer.

Era bom que houvesse mais isto. Fazia-nos falta. E isso demonstra também a importância da candidatura para a cidade.

A importância não é para 2028. Queremos ganhar? Claro que queremos. Temos condições para ganhar? Claro que sim.

Mas o foco desta candidatura é a partir do dia 1 de Janeiro de 2029. Fazer um excelente trabalho em 2028, dá-nos ainda mais responsabilidades a partir do dia 1 de Janeiro de 2029.

A importância desta candidatura é, pós-momento, aquilo que fica, aquilo que a cidade pode extrair desta construção coletiva que está a fazer neste momento.

O nosso trabalho é para criar um impacto independentemente do resultado. Porque nenhuma cidade evolui se a comunidade não quiser evoluir.

Se a própria comunidade se unir e quiser alavancar Setúbal, as comunidades, à volta, vão perceber isso, vão estar presentes e vão ouvir.

O principal trabalho desta candidatura é focar-nos no 1 de Janeiro de 2029. Porque fazer uma candidatura, ganhar, fazer um espetáculo de abertura brilhante, um espetáculo de encerramento brilhante, um ano fantástico, e no 1 de Janeiro de 2029, ninguém se lembrar que Setúbal foi a capital portuguesa da cultura, não tem sentido.

Quais são os principais trunfos da cidade que a podem diferenciar das outras candidaturas?

J.M. Essa é a pergunta para um milhão de euros, literalmente, porque o prémio para a candidatura vencedora é um milhão de euros.

J.A. Nós queremos um modelo diferenciador. Nós ainda não vimos esse modelo noutras capitais portuguesas de cultura, nem capitais europeias de cultura.

E não descobrimos a roda, mas é um modelo diferente.

De pessoas que olham para a cultura de uma forma mais abrangente, mais generalista, menos focada no palco, e mais focada na comunidade e na criatividade. Esse é o nosso modelo que assenta em sete eixos fundamentais.

São esses eixos que são diferenciadores. Porque nós não olhamos para a cultura como aquilo que normalmente vemos numa capital portuguesa de cultura, que é o palco e a performance. Isso também está lá, aliás, é um dos primeiros eixos, mas, a cultura é muito mais do que isso. E percebemos isso nas reuniões.  

A cultura tem uma multiplicidade de formas. Tudo o que se passa na cidade de Setúbal, no dia a dia, é cultura. Depende é da forma que nós olhamos para ela. E é essa forma que nós queremos agarrar na cidade de Setúbal.

A cidade, nesse aspeto, tem coisas que nenhuma das cidades que vão concorrer tem e essa é a única forma que esta candidatura se pode diferenciar.

Então onde é que esta candidatura se deverá focar?

J.A. Nós temos de focar-nos na literatura local. Temos trunfos extremamente importantes e esta candidatura pode ser também uma forma de desmistificar a questão de Bocage. Porque a literatura Bocagiana está muito associada ao erotismo. Mas Bocage não é só isso. E esta candidatura pode ajudar também a mostrar o lado fantástico de Bocage.

Quem leu o Bocage percebe que a sua inteligência para a escrita era completamente fora do normal.

E na música… temos o maior nome da música portuguesa, sem dúvida alguma. Mas precisamos de cimentar a sua relação com Setúbal. Porque às vezes não está muito cimentada, visto que ainda se liga muito Zeca Afonso a Aveiro.

Portanto nós temos fatores diferenciadores, agora, quem estiver a avaliar a candidatura, pode chegar e dizer: “isto a mim não me interessa, eu gosto de uma candidatura com uma cultura de palco e ponto final”. Nesse caso nós perdemos, porque não vamos colocar as fichas todas na arte performativa. Não vamos, não podemos…

Sente que colocar todas as ‘fichas’ na arte performativa seria um ‘tiro nos pés’?

J.A. Sim. Não porque não haja, mas porque estaríamos a deitar fora uma oportunidade única para mudar o conceito cultural da cidade.

Estar a colocar as ‘fichas’ todas nas artes performativas, estaria a fazer-nos perder uma oportunidade de ouro de mudar o conceito cultural da cidade.

A nossa ideia é ouvir a cidade, mas depois passar-lhes esta visão, também. Porque cada um vê a sua área, mas todos podemos ver uma área global.

E só apostar na arte performativa não era correto para com a cidade de Setúbal.

Qual considera ser o maior desafio desta candidatura?

J.A. O maior desafio desta candidatura é o momento em que ela é criada. O verão, que é sempre um momento difícil, com mais pessoas ausentes. Isso para uma candidatura como a nossa, que tem um trabalho muito próximo da comunidade, é um grande desafio.

Isto porque a nossa candidatura, definiu desde o início, as pessoas têm de estar presentes. Esta não é uma candidatura de gabinete.

Numa candidatura como a nossa, que apoia todo o seu trabalho na auscultação da comunidade, é extremamente difícil conseguirmos ter a comunidade connosco porque estamos em altura de férias.

Quais são os pontos que sentem que a comunidade tem dado mais importância e que quer mais discutir nestas reuniões?

J.M. Turismo.

A necessidade de preparar a cidade para o turismo. Preparar e alavancar. Porque o turismo existe, mas é um turismo deficitário.

Inclusivamente numa reunião lançaram uma ideia muito interessante. Os guias locais, serem formados aqui na escola de hotelaria. Faz todo o sentido e vamos pedir para que esta ideia seja trabalhada.

Neste sentido, temos de ouvir e sentir o lado das pessoas. Nós não conhecemos tudo.

Por vezes, para nós é tão óbvio o que está a acontecer que não olhamos ao que está para trás disso para perceber que se calhar é preciso mexer neste ponto ou noutro para que seja alavancado o turismo na cidade.

J.A. Sentimos também bastante a questão dos espaços. Toda a gente queria o seu espaço.

Nós já visitamos os espaços culturais e acho que pode haver um ‘refresh’ na forma como eles funcionam.

Neste momento, acho que temos alguns que poderão ser adaptados para ter espaços apetecíveis para fazer grandes espetáculos.

Como vão organizar e filtrar todos os contributos da comunidade?

J.M. Essa parte não é fácil. Gerir todas as informações e arrumá-las, não é nada fácil.

J.A. Essa parte é sempre mais difícil, porque ter num único documento as vontades de uma cidade, é sempre complicado.

Por isso é que ela foi estruturada em sete eixos estratégicos. Dentro da mesma opinião, há coisas que vão para o eixo um, há coisas que vão para o eixo dois, há coisas que vão para o eixo sete. E é com esses diferentes eixos que depois temos o mapa de auscultação e vamos começar a agrupá-los. Depois vai sair um documento que tenta abranger a maioria dos anseios úteis a esta candidatura.

Dentro destes contributos, há sempre alguns que não são exequíveis. É útil tudo aquilo que for transmitido pela comunidade que se enquadra dentro deste espírito do desenvolvimento cultural da comunidade e que seja viável.

Há também contributos que gostaríamos que fossem possíveis, mas não sendo, não vamos estar a criar uma candidatura de ilusão.

A ideia é criar um documento que seja real. Não é estar a criar ilusões que sabemos à partida que não vão acontecer.

O que pudermos adaptar, adaptamos e tudo aquilo que se enquadra dentro do espírito cultural, da renovação cultural, vai ser incluído na candidatura.

Que mudanças concretas é que os setubalenses podem esperar se esta for a candidatura vencedora?

J.A. A primeira mudança é nos próprios setubalenses. Não será física. É eles estarem empenhados nisto. Serem os setubalenses o principal contributo para a cidade.

A cidade só evolui se as pessoas quiserem. E não será pela pedra, não será pelo betão.

A cidade tem transformação se os cidadãos estiverem dispostos a criar uma dinâmica que seja realmente transformadora para a cidade. É isso que nós procuramos.

E se quiserem criar essa dinâmica transformadora para a cidade, os setubalenses podem esperar muito dos resultados desta candidatura, independentemente de ser ou não vencedora.

A nossa ideia é unir, criar dinâmica, que os setubalenses estejam com vontade de criar uma dinâmica diferenciada.

Na primeira reunião reparei que havia grupos que não se conheciam uns aos outros. Isso não pode acontecer!

Observei uma situação de uma senhora que é de uma área específica, e eu perguntei à pessoa que estava ao meu lado, que era da mesma área, “quem é?”. A resposta foi “não sei”.

Isto não pode acontecer, a malta da cultura tem de se conhecer.

Essa é a primeira grande mudança que nós queremos criar na cidade. É que os setubalenses estejam dispostos a ser o principal elo de alavanco da mudança.

Portanto a candidatura será o pontapé de saída, mas quem vai definir se realmente a cidade se transforma é o povo?

J.M. Tem de ser, depois, numa segunda fase, é pensar em exportar o produto artístico setubalense para fora. Alavancar Setúbal e exportar Setúbal para o mundo.

O associativismo aqui em Setúbal está muito agarrado à cidade e ao público de Setúbal. Não saem daqui.

J.A. A primeira grande mudança terá de ser a comunidade estar disposta a ser o alavanco principal da cultura de Setúbal.

Essa será a primeira grande mudança. Mas só com essa mudança é que acontecem as outras. E as outras passam por criar um dinamismo que possibilite que Setúbal seja uma cidade de referência a nível cultural no país e fora dele. É transportar a cultura de Setúbal para fora das suas fronteiras. E quando digo fora das suas fronteiras, não digo ir a Palmela ou a Lisboa. Digo colocar Setúbal de norte a sul do país, mas principalmente no estrangeiro.

Mas isso é uma transformação que tem de partir da própria comunidade. O movimento associativo aqui tem de ser unido e não é.

É essa a primeira transformação que queremos, juntar a cidade num mesmo objetivo. Quando o fizermos, isto vai ser extremamente fácil.

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