Círios da Arrábida, entre as imagens e a memória (3)

Círios da Arrábida, entre as imagens e a memória (3)

Círios da Arrábida, entre as imagens e a memória (3)

, Professor
3 Novembro 2026, Terça-feira
Professor

A diversidade de abordagens dos círios da Arrábida na obra que José António Carvalho organizou fica completa com os textos de Rodrigo Manuel Ribeiro e de Rui Manuel Mesquita Mendes, o primeiro incidindo sobre as “Contradanças no Círio da Arrábida” e o segundo sobre a Capela de Nossa Senhora do Carmo (El Carmen).


Relativamente à participação musical, Rodrigo Ribeiro considera que “o Círio da Arrábida foi, desde sempre, acompanhado por músicos e que, após a fundação da Perpétua, estes passaram a integrar esta celebração”, com contradanças “compostas especificamente para o Círio”, pelo menos “duas novas em cada ano”, “tocadas nas aldeias por onde o Círio passava”. Desde a mais antiga contradança constante nos arquivos da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, datada de 1912, de autor desconhecido, Rodrigo Ribeiro menciona vários nomes que ficaram ligados àquela associação e ao Círio pelo seu contributo musical, como Silva Paranhos, Santos Tavares, Alfredo Caineta, Agostinho Caineta, Joaquim Caineta, Diamantino Perdigão, Pedro Marquês de Sousa, Duarte Zacarias e António Alface. Na bibliografia indicada neste capítulo, valerá a pena considerar, além da mencionada, a tese de doutoramento de Pedro Marquês de Sousa (disponível no repositório da UNL), datada de 2013, “As Bandas de Música no Distrito de Lisboa entre a Regeneração e a República: 1850-1910”, que contém referências à importância do contributo musical para os círios (registe-se que o concelho de Setúbal pertenceu ao distrito de Lisboa até 1926, ano em que foi criado o distrito de Setúbal).

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O contributo de Rui Mesquita Mendes para a obra “Círios da Serra da Arrábida” assenta no historial documentado da Capela de El Carmen desde o século XVI, edificação que teve ajudas à conservação e à reconstrução oriundas da “devoção popular”, da “protecção senhorial” e do “apoio da Coroa”. Desde um dos possíveis fundadores, Álvaro de Mascarenhas (comendador da Arrábida no período de 1489 a 1502), até à aquisição do terreno com a ermida, em Janeiro de 1840, em hasta pública, por D. Pedro de Sousa Holstein (da Casa de Palmela, que garantiu a conservação da estrutura e permitiu a continuidade das celebrações tradicionais), o leitor segue o historial do santuário, que se tornou, “simultaneamente, centro de peregrinação e apoio às estadias senhoriais na serra, harmoniosamente integrado numa das paisagens mais marcantes da Arrábida”. Destaca o autor que “poucas ermidas portuguesas dispõem de um percurso documental que permita acompanhar, quase sem interrupções, a sua evolução entre o final da Idade Média e o século XIX, como a Ermida de Nossa Senhora de El Carmen” (frequência visível, inclusivamente, nas referências bibliográficas apresentadas), circunstância que Mesquita Mendes atribui a vários factores: a “implantação da Ordem de Santiago na Arrábida”, a “acção dos comendadores e dos Duques de Aveiro”, a “intervenção régia da Casa do Infantado”, a “organização das confrarias”, a “religiosidade popular” e a “própria evolução da paisagem histórica da serra”.


“Círios da Serra da Arrábida”, que se apresenta em edição bilingue (português e inglês), coordenado e editado por José António de Carvalho, é um título que se revela indispensável para o conhecimento destas manifestações de religiosidade popular que ocorrem na região de Setúbal, um trabalho cuidado, assente numa abordagem de diversos ângulos, garantida por uma dezena de textos (assinados por cinco autores, com mais de meia centena de referências bibliográficas, além das constantes nas notas de rodapé), por três “narrativas fotográficas” (reportagens de pormenor sobre a vivência dos círios, ao longo de cerca de 190 fotografias, produzidas entre 2011 e 2025) e por algumas ilustrações devidas a Helena de Mancelos (a que não escapa o ambiente religioso).


A vivência dos círios, designadamente os da Arrábida, foi desde sempre um momento alto para os participantes e para os visitantes e esta obra, da iniciativa de José António Carvalho, demonstra a razão que assistia a João-Fernandes, quando, em 1896, quis lembrar em “duas palavras” o historial e o propósito destas manifestações, no livro “Arrábida – Publicação Comemorativa da Festividade Celebrada pelo Antigo Círio de Setúbal”: “os círios e as romarias, se não são a mais genuína expressão do espírito religioso, na sua acepção elevada, não excluem o sentimento da crença na sua intenção sincera e aliam na forma festival e expansiva os preitos do culto à diversão inofensiva, na sua feição poética, tradicionalmente querida do nosso povo.”

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